Wednesday, February 19, 2014

26/02/2013 19:58:59

Indústria da seca, poder político e pobreza

Liliana Peixinho, especial para o Mercado Ético

Seca castiga rebanhos de gado / Fotos: Liliana Peixinho
O cenário da seca no Nordeste é de descaso, abandono e dor. As gestões municipais desconsideram estudos, previsões e diagnósticos já realizados. Resultados de pesquisas científicas, com indicadores de ciclos climáticos, servem mais para justificar a captação de recursos para elaboração de projetos e programas que não saem do papel, do que para ações reais de prevenção e cuidado com a vida. A falta de planejamento fortalece articulações políticas para a liberação de recursos emergenciais alocados em rubricas que deveriam potencializar a riqueza local para a auto-sustentação comunitária. Mas, em campo, a lógica é perversa. Parece ter sido calculada para manter sistemas que não funcionam, como a Saúde, a Educação, a Moradia e a Segurança.
A miséria é alimentada em períodos longos. Programas de benefícios de combate à fome e à miséria absoluta funcionam no curto prazo, mas ao longo dos anos os efeitos são preocupantes, pois inibem a proatividade e a sustentabilidade comunitária. O plantio diminui, os pastos aumentam, a mata some, o lixo aparece, os leitos dos rios somem e o povo, em agonia, faz de conta que vive. A informação circula rápido, de boca em boca, para cultuar valores descartáveis, incentivados por um modelo econômico que confunde crescimento com desenvolvimento a qualquer custo.
É exatamente sobre esse verdadeiro flagelo social e suas consequências que vai tratar a série de sete reportagens especiais Sertão Adentro, realizada pela jornalista e ativista Liliana Peixinho especialmente para o Mercado Ético.
Toma lá, dá cá
“Nunca vi tanto dinheiro solto como nessas eleições! Os caras chegavam era com os pacotes de mil reais, para conversar com os contatos das negociações de voto”. Ouvi essa frase de um senhor, numa conversa informal, com a cara mais cínica do mundo, sorriso largo de quem sabe que não está agindo certo, mas que parecia se justificar na máxima: “oxe, quem está melhorzinho faz assim. Por que eu ficaria de fora?”
Quem entra na conversa com discurso ético é logo cotado como besta e ingênuo. O que as pessoas dizem nas ruas é que não adianta nada pensar assim, porque se um não faz, tem outro, logo alí, já esperando a oportunidade pra fazer, pois a “necessidade é grande e os filhos, aos montes, esperam comida”.

Sobrevivendo mesmo diante das dificuldades / Foto: Liliana Peixinho
A miséria mantém seus elos com a insegurança alimentar, fome, sede, degradação de ambientes… Estão casadas com a falta de aplicação de recursos no combate aos efeitos perversos da indústria da seca. A falta de acesso à água para sanar problemas de perdas na agricultura, comércio e manter as cadeias de produção em torno da Vida é histórica e não basta denunciar, é preciso fechar o ciclo de crimes impunes.
O cidadão, que fortalece o poder político, continua sendo controlado através de contrapartidas eleitoreiras de enganação. E o Sertão é alvo histórico nesse processo. É o bolsa familia e outros sistemas de manutenção da miséria que indica a relação direta entre a falta de produção de feijão, milho, mandioca e outras culturas tradicionais de roças em cidades Nordeste adentro e afora.
“Faz mais de cinco anos que a gente não consegue mais plantar e colher como antes. Agora temos que comprar tudo na cidad:, o feijão, a farinha, o milho e até a mandioca, que a gente sempre fez a tapioca, e agora compramos o polvilho, já refinado“, diz Eroncio Porciono, pequeno agricultor de 54 anos, dois filhos, que recebe o benefício do governo e usa para comprar a cesta básica na cidade. Mesmo assim, ele tem muita dificuldade com tudo, inclusive para manter os filhos na escola, distante do local onde mora.
O Sertão está sedento de cuidados, Justiça, atenção, respeito ao seu povo. Na Bahia, por exemplo, dos 417 municípios do estado, mais da metade, cerca de 240 prefeituras, solicitaram o “decreto de estado de emergência”. Usado mais como ato político eleitoreiro, na criminosa compra de votos, do que para aquilo que o povo necessita, espera, merece e tem direito. As comunidades rurais continuam sofrendo muito com a falta d’àgua e todos os seus ciclos produtivos, interrompidos.
PERDAS EM CADEIAS
Um olhar contextualizado sertão adentro revela que a àgua é utilizada como moeda forte de troca. No curto tempo, na emergência de socorrer a vida, banaliza-se os meios políticos utilizados para, a longo prazo, aumentar o sofrimento nordestino, registrado em lentes ampliadas. Essa resistência aos efeitos negativos da seca alimenta a injeção gorda de recursos em programas como Água pra Todos, Combate à pobreza, miséria dentre outros, espalhados em Ministérios. Os desvios e desperdícios agem rápido no agravamento do quadro de miséria, capitalizado pela velha e perversa política coronelista, que só mudou de nome, como herança maldita entre gerações, de avô pra neto, de patrão para empregado, para a garantia de votos.
As perdas, essas sim, são transversais, e acumulam saldos culturais, pessoais e psicológicas, em cadeias sucessivas. Nesse cenário, mais de dois milhões de pessoas fragilizadas, sem saídas, engrossam as filas para se curvar e receber migalhas, em forma de cestas básicas, remédios, jogos de camisas de futebol, consultas médicas apressadas, para fazer de conta que cuidam da Vida, pendurada em cabides de subemprego.
O grande projeto político é a capitalização dos votos, em sistemas históricos de exploração, herdados do clientelismo, travestido em política inclusiva. Associações, sindicatos, ONGs e coletivos diversos integram um engendrado sistema de captação de recursos, construídos em representações de cargos políticos, para disputar editais forjados, processos seletivos escamoteados, contratação de consultorias técnicas, empregos/cargos arranjados por indicação, num sistema de controle total dos recursos.
O uso da água como moeda de troca é histórico. A capitalização política da miséria nordestina foi exposta por Josué de Castro como “Nordeste inventado”, na obra Geografia da Fome (Castro, 1984). Ao inserirmos a discussão sobre o acesso à água e outros direitos básicos não assegurados, a Bahia, por exemplo, se destaca entre os menores índices de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).
Manifestações populares de peso como a mobilização contra projeto de transposição das águas do Rio São Francisco, apoiada por ambientalistas, jornalistas, ribeirinhos, parlamentares, estudantes, igreja e representações comunitárias diversas, vindas em romarias, de todo o Brasil, em outubro de 2005, chamaram atenção internacional sobre o valor e importância da água nas comunidades historicamente excluídas desse direito.
O paradoxo entre o que se diz e que está sendo feito como discurso político empresarial e a realidade apresentada pela falta da ação concreta, in loco, não interessa detalhar, investigar e punir, para não se repetir. É nesse cenário que o sofrimento do nordestino vira tese de mestrado, doutorado, roteiro de filme, peças teatrais, letra de música, enredo de escola de samba, livros, onde a estética está mais para capitalizar a dor do que para encontrar saídas de fato.
(Mercado Ético)

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COMENTÁRIOS

Elizabeth Oliveira26/02/2013 às 21:15
Excelente texto, contextualizando uma dura realidade que vem se perpetuando historicamente, para assegurar a prosperidade de poucos, às custas da miséria e do atraso de muitos. Belo exemplo de jornalismo em profundidade. Parabéns à jornalista que produziu o conteúdo e ao Mercado Ético por abrir espaço para debate deste tema fundamental ao desenvolvimento do Brasil.
Castelini27/02/2013 às 10:58
Parabéns, pelo texto e vergonhoso ver e ler uma materia como essa, mas e a realidade, que tenho certeza que poderia ser amenizada ou acaba. Uma região como essa o que tem a oferecer aos politicos? nada?
Enquanto os politicos recebem decimo quarto e decimo quinto salario ( vergonhoso) nossos irmãos perdem o suor de anos por falta de estrutura e falta de empenho de politicos que só pensam em seus bolsos e em si próprios.
Pergunto VC já viu um politico lutar ou se empenhar em levar beneficios ou alguma estrutura para uma região desta?
Quem, Qual? deles. sabe quando isso vai acabar?
Clovis Brayner27/02/2013 às 11:19
Há uns 60 anos atrás, com poucos anos de nascido, já escutava esse tema e as possíveis promessas/soluções que nunca aconteceram, inclusive uma delas em Israel, onde a irrigação foi implantada com sucesso, isso há muitos anos…
Também ouvia sobre a indústria da seca e o processo eleitoreiro.
Acho que o problema começa no nosso povo, principalmente o nordestino, onde me incluo, que é em sua maioria desprovido de educação e cultura, trazendo por consequência acomodação em todos os sentidos.
Sobrevive porque é um forte, não sei até quando…
Exemplo recente de movimento NÃO SÉRIO e que envolve imprensa falada, escrita e televisiva: o assassinato do jovem boliviano. Se houvesse algo semelhante com relação à seca do nordeste, acredito que haveria ressonância junto aos poucos dirigentes e políticos sérios desse nosso pobre país, atingindo também a população e, quem sabe, se criaria uma Lista de Assinaturas, como a que está correndo atualmente e que já conseguiu mais de 1 milhão para excluir APENAS 1 cidadão indesejável ao povo.
ALANO BASTOS COSTA FILHO27/02/2013 às 13:23
Trabalho em um Banco de desenvolvimento regional. Apesar da realização de esforços repetitivos na tentativa de melhorar a situação encontrada nas pequenas propriedades do semiárido nordestino, com inserção de microcrédito direcionado para produção de grãos como o milho e o feijão, como também para a pecuária leiteira, sempre nos deparamos com a falta de infraestrutura hídrica e a consequente descontinuidade de projetos. Realmente a politicagem sem sentido e voraz influenciou na manutenção desse quadro de miséria. Projetos de açudagem e transposição de cursos de água sempre foram direcionados para empresários que muitas vezes nunca conheceram a realidade do sertão. Não desistamos de tentar ajudar nossos colegas do nordeste.
José Carlos Costa28/02/2013 às 10:52
Precisamos iniciar urgentemente um processo de simplificação do sistema como um todo que tenha por base a confiança!
Já percebemos que o atual sistema com alta burocracia motivada pela “desconfiança”, geradora da corrupção, da impunidade e do stress., que alimentam o medo e a violência.
Deveria haver um compromisso dos politicos nordestinos com a solução da seca… Eles é que deveriam fazer esse tipo de trabalho, percorrendo por meses essas regiões até ver os resultados do seu trabalho.
Precisamos simplificar o sistema judiciário, o executivo e o legislativo. Acredito que com isso não vamos precisar de tantos senadores, deputados e vereadores recebendo altos salários e benesses ultrajantes.
QUEM LEVANTA ESSA BANDEIRA?
Liliana Peixinho14/03/2013 às 7:17
Prezados leitores, cada um ai de vocês
Ir a campo coletar esses dados exigiu esforços além da nossa capacidade. Em nenhum momento pensei em desistir e não fosse o apoio do Mercado Etico para ajudar-me no conserto de um carro, velhinho, para voltar a Salvador/ Bahia, por certo estaria ainda em campo e voces teriam que esperar um pouco mais para entender o quanto de sofrimento esse povo está passando, e ainda deverá passar.
Sou uma jornalista independente, livre, free lancer, e agradeço demais o apoio do diretoria do Mercado Etico na publicação dessa série especial de oito matérias.
No entanto, gostaria de voltar à campo porque graças à visibilidade das matérias, aqui publicadas e replicadas nas Redes Sociais como Facebook, twitter, google +, entre outras tem me chegado, e gostaria de checar in loco, informações sobre uma onda de suicídios que vem ocorrendo em função da seca e sua continuidade, diante das previsões meteorol ógicas de falta de chuvas na região.
Quem quiser ajudar na expedição 2 SECA SERTÃO ADENTRO entre em contato com essa jornalista pelo telefone 55 – (71) – 9938 0159 .
Além da busca de novas informações também levarei boas informações em forma de livros, revistas e claro, entregar a cada um entrevistado um exemplar da nossa matéria, para os personagens de encontrar em suas próprias histórias.
Sds harmoniosas a cada um desses valiosos leitores
Liliana Peixinho
Washington Sidney14/03/2013 às 18:36
Parabéns, Lili. Excelente a reportagem e primoroso o texto. Pena que o número de profissionais de imprensa preocupados com dramas sociais como o da seca esteja tão escasso quanto a água no interior do Nordeste.
Flávia Maciel17/03/2013 às 0:12
Liliana, parabéns pelo trabalho. Precisamos dar visibilidade a essa tragédia. Estive na região de Monte Santo em abril de 2012, ainda era o início, e já era demais. Minha irmã Raquel também viajou pelo sertão no segundo semestre falou sobre o grande número de suicídios. Se pudermos ser útil no seu trabalho, conte conosco.
Raquel Maciel18/03/2013 às 11:24
Olá Liliane. Parabéns pela reportagem! Desde meados do ano passado, quando viajei pelo sertão da Bahia numa pesquisa do Ministério da Saúde, ainda não tinha visto uma matéria aprofundada sobre a situação calamitosa do sertão… parabéns pelo belo trabalho! Sei que não deve ter sido nada fácil enfrentar as dificuldades, a poeira e a tristeza por essas terras…
Sobre os suicídios, é fato. Fiquei assustada com a quantidade de suicídios, principalmente na região de Irecê. Muitas pessoas se matam por enforcamento, e na região não existe nenhum centro de apoio psicossocial. Nenhum! O número de pessoas com transtornos mentais também é altíssimo. Milhares de medicamentos de tarja preta são distribuídos nos postos de saúde, sem que seja feito nenhuma avaliação psicológica ou acompanhamento por um profissional específico. Quando visitei a região, em agosto do ano passado, mais de 40 pessoas já haviam se suicidado. A população já encara como algo normal e ja espera “o suicídio a semana!”. A maioria dos casos de suicídio parece que é por conta dos endividamentos. Os agricultores investem, pegam empréstimos, e sem previsão de chuva muitos se matam. Mas não apenas os agricultores se suicidam, até pessoas que não sobrevivem diretamente da agricultura se suicidam, como o caso que acompanhamos de uma enfermeira que tinha dois empregos e era bem sucedida, e se matou supostamente porque o namorado havia terminado com ela. O fato é… é uma “moda” na região e talvez pela condição de abandono… a seca deprime.
Nayane18/03/2013 às 20:26
É impressionante pensar que diante de tantos avanços tecnologicos, o problema na seca do nordeste parece não ter fim. E a população do sertão, fica na mesma situação, indo e vindo governo e nada de mudança. E no momento do voto o governo volta o seu olhar para aqules tão frageis, e sedentos nordestinos. É revoltante.
Ativista Ambiental Aramy Fablicio25/03/2013 às 13:04
Parabéns pela matéria , não vou falar porque fizeram um bom trabalho. tenho 47 anos e conheço todas as mazelas desde criança. Sou do munícipio de Fagundes, estado da Paraíba. Ativista Ambiental Aramy Fablici.
CARLOS SEBASTIAO FERRAZ MARTINS27/03/2013 às 19:57
DEUS ,esta muito triste,e muita maldade,e muita ganancia,e muito egoismo dentro dos coraçoes de quem ganha fortunas,para ajudar ou pelo menos tentar solucionar os problemas do nosso pais,pais que serve de calmante para o mundo inteiro,pois aqui nao temos catastrofes,terremotos,vulcao,tsuname ,nos somos o compromido do mundo,mais o que eles querem e acabar com tudo ,tanta gente sofrendo,fome e sede,gente sem saude morrendo nos leitos dos hospitais,isto,quando nao aparece um doido ou uma doida desligando aprelhos respiratorios nos hospitais pra acelerar a morte dos mais nessessitado,o povo nordestino sao os que mais sofrem,pena que nos os seres chamados humanos estamos caminhando por caminhos tao distantes de nossos irmaos,quanta desigualdadeSR TEM MISERICORDIA DE NOS,UM POVO PECADOR
Pedro28/08/2013 às 17:05
Não devemos matar nem um animal por que todos são criação de Deus
Mais se for para se alimentar pode só que se for para matar e deixar la para apodrecer
Os animais são criaturas de Deus como nos
Em tão por que nós matamos os animais se nós gostamos dos gato,cachorros,coelhos râmister,peixes e etc…
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11/10/2013 06:48:50

Mercado Ético é finalista do prêmio HSBC de jornalismo

Mercado Ético
O Especial Sertão Adentro, produzido pela jornalista Liliana Peixinho especialmente para o Mercado Ético, ganhou grande destaque entre os leitores do portal por retratar as mazelas enfrentadas pelos sertanejos durante a última seca. A repórter se embrenhou em terras áridas, onde a água é pouca, mas a esperança é muita. Se acomodou nas casas de flagelados. Viu a morte de perto, mas também a alegria de um povo que, assim como o umbuzeiro (árvore típica do sertão famosa por sua resistência em ambientes secos), insiste em continuar firme e forte na terra em que nasceu.
É com alegria que recebemos a notícia de que esse trabalho está entre os finalistas do Prêmio Jornalista & Cia HSBC de Imprensa e Sustentabilidade, na categoria webjornalismo.
Relembre o Especial Sertão Adentro nos links abaixo:
(Mercado Ético)
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Mery Bahia13/10/2013 às 12:35
Parabéns à reporter Liliana Peixinho e ao Mercado Ético. Acompanhei o trabalho e achei muito bom. Merece o reconhecimento.

Monday, February 10, 2014

Janelas cotidianas


Kiriri mirim trepado pra ver ao longe


Pretinho gosta de ficar ao lado de Cardim
Cardim, batizado por Irá

Sem árvores lá fora, fez o ninho coqueirinho, na dispensa


Hora de sair na busca de comida, lá fora

Uma sestinha, depois do almoço


                                           Saiu do  ovo, e ficou no ninho, quetinho
                                          Observando do ninho quetinho, a chuva, lá fora!            
                                          Desafios em moradia de risco

                                           Inchaço urbano, fruto de sonhos despedaçados


                                             Vida veloz, atroz

Saturday, April 21, 2012

“CADA UM PODE CONTRIBUIR PARA UM NOVO MODELO DE DESENVOLVIMENTO”, DIZ, NA BAHIA, O JORNALISTA E PROFESSOR ANDRÉ TRIGUEIRO

Texto: Liliana Peixinho
Fotos: Paula Boaventura
“A gente precisa deixar claro que não é possível mais nos acostumarmos ou introjetarmos na nossa cultura certos hábitos, comportamentos, ou padrões de consumo, que são potencialmente danosos a vida.”
Numa entrevista exclusiva, na Bahia, antes da palestra ” Espiritismo e Ecologia”, na Escola Polítécnica, em Salvador, o jornalista, escritor e professor André Trigueiro, idealizador do Programa  “Cidades e Soluções”, apresentado na Globo News e Canal Futura,  fala sobre Ciência pra que e pra quem, e por que?, critica práticas empresariais ditas sustentáveis, sem ser. Comenta a proposta de criação de um movimento em favor da retirada sustentável dos recursos, respeitando a capacidade de suporte dos ecossistemas”, defendido durante a Conferencia de Nagoya. Considera que no jornalismo, na comunicação “ é preciso que cada um, com suas ferramentas metodológicas, com sua visão de mundo, possa contribuir para um novo modelo de desenvolvimento”. Que entende jornalismo como duas frentes de trabalho que não se excluem, pelo contrário, são complementares: denunciar o que esta errado, sinalizar os rumos, as saídas, as alternativas, opções inteligentes em favor da vida.
Como pessoa e profissional antenado mostra-se otimista ao considerar que “Estamos hoje melhor do que já estivemos, em todos  os aspectos: espaço ocupado na mídia, qualidade das pessoas que estão fazendo uso da palavra e da escrita para expressar o que é a noticia. E estaremos, no futuro, se Deus quiser, melhor do que  estamos hoje. Mas capacitados para falar desses assuntos com a sua devida ordem de grandeza”.
Condenou determinadas práticas midiáticas ao dizer que “sensacionalismo não combina com jornalismo ético, e de credibilidade”. Com uma visão de mundo moderna, com práticas pessoais internalizadas, usando roupas simples, como uma bata de algodão durante palestra realizada em Salvador, a convite da Sociedade Espírita “O Semeador”, Andre mostrou todo o tempo  um semblante tranqüilo, e usou o humor crítico, irreverente e inteligente para criticar ou fazer observações sobre comportamentos de consumo (eu só uso álcool no carro, não quero nem ver o preço). Observei muito shoppings Center em Salvador. Levando o público ao delírio, arrancando muitas risadas  o recado foi sério “ Não é possível mais nos acostumarmos ou introjetarmos na nossa cultura certos hábitos, comportamentos, ou padrões de consumo, que são potencialmente danosos à vida”.
Com tapa de luva condenou o falso discurso de grandes corporações ao dizer “ Não é correto, do ponto de vista da informação com credibilidade, usar o termo sustentável como adjetivo de tantos empreendimentos imobiliários, bancos, postos de gasolina, supermercados, companhias petrolíferas ou de mineração, dizendo que é sustentável. É é uma ova. E ai a gente está aqui para dizer porque não é. E esse debate é muito rico e fecundo.
Questionado pela colega jornalista sobre  que modelo estamos a perseguir, construir. O professor Trigueiro foi taxativo “ Esse modelo não existe. E o grande desafio é esse. A gente está tendo que trocar o pneu da bicicleta com a bicicleta andando. A gente não tem esse modelo, estamos descobrindo, fazendo”.
O jornalista foi implacável ao defender o papel profissional:  “a gente precisa ter coragem e compromisso em denunciar, em mostrar o que realmente está sendo feito e o que se diz que esta sendo feito”.
E foi realista ao explicar que um novo modelo de desenvolvimento para o planeta não se faz dizendo:  “agora vamos acabar com a sociedade de consumo, vamos acabar com a banalização na compra de supérfluos e vamos ter aqui valores altruístas, humanitários, coletivos, socioambientais. Não é assim”.  Considera, nesse contexto: “Importante incomodar esse poder dominante. Estamos falando de uma classe política e de uma classe econômica que complementam ou consensuam que não há propriamente algo a ser mudado no que esta ai”.  O professor, que criou o primeiro curso de Jornalismo Ambiental na UFRJ lamentou que “A academia hoje não esta preparando economistas para o século XXI. É preciso pensar nisso. São exceções a regra como Eduardo Giannetti da Fonseca, Jose Eloy da Veiga, Sergio Besseman, são alguns nomes de pessoas que estão contra a maré”.
Sobre a presença de uma  mulher Dilma Rousseff , de uma presença feminina na presidência do Brasil,  comentou ” acho que você pode ser um homem muito sensível, com uma visão feminina prevalente de mundo e de valores e de atitudes,  e você pode ter uma mulher legítima representante da sociedade patriarcal”. E torce para que a Dilma possa ter uma nova visão de gestão para o Brasil.
Quanto aos 20 milhões de votos conquistados pela candidata  Marina André Trigueiro disse: “ Marina foi o novo. E o novo em que sentido? No sentido dela estar muito bem embasada, muito bem acompanhada. Foi a única candidata das quatro candidaturas mais experientes, a apresentar um programa de governo detalhado e consistente. Portanto, o que ela estava falando estava lastreado em compromisso por escrito. Algo que os dois candidatos não fizeram. E um discurso muito sedutor”.Com visão política avançada, independente, e desejando novas  perspectivas de avanço no discurso e práticas sustentáveis projetou desejos: “Eu torço para que nas próximas eleições nem o PV e nem a Marina sejam os únicos porta-vozes desse discurso”
Criador e apresentador do “Cidades e Soluções,” programa que ousa e tem compromisso com a Ecocity ,Andre disse que “ entendo que nós temos no Brasil a necessidade  de se ver balizar um novo modelo de desenvolvimento. E um pais com a nossa configuração tem toda capacidade de construir, que seja realmente colocando a sustentabilidade como o eixo motivacional. Não é um adereço, não é uma variável digamos um tanto distante do desenvolvimentismo, mas é  tão importante quanto produzir riqueza, tão importante quanto gerar emprego e renda, é  que essas políticas públicas não onerem o passivo ambiental do Brasil, pense um Brasil futuro numa escala de 50  a 100 anos quando a gente fala de matriz energética; que pense em Educação de forma integral”.
 
“Tão importante quanto produzir riqueza, tão importante quanto gerar emprego e renda, é  que essas políticas públicas não onerem o passivo ambiental do Brasil, pense um Brasil futuro numa escala de 50  a 100 anos”
Para entender a tranquilidade, o jeito doce e equilibrado de um jornalista que vive no mundo, cobrindo meio ambiente de forma transversalizada foi necessário saber um pouco mais da intimidade dessa pessoa. E descobrimos um lado que poucos sabem, conhecem desse jornalista ultra respeitado e com trabalho sendo referencia para outros jornalistas. O lado espiritual totalmente integrado com o seu jeito transparente de ser.  Disse ele:” se eu bem entendo o significado do discurso religioso é de nos religarmos a uma força superior. Todas as religiões tentam nos transformar em pessoas melhores e promovem à vida, na sua plenitude. Uma religião que não seja sustentável é um paradoxo terrível” Com uma visão muito avançada sobre  Espiritismo ele foi fundo na história e nos ensinou que “ é uma filosofia espiritualista que tem aspectos religiosos e trás nas suas informações básicas, e isso é interessante porque é uma doutrina que tem 150 anos, modernas assertivas que remetem a um mundo mais solidário e no uso dos recursos naturais, separa o que é necessário do que é supérfluo”

Sincronizado com o discurso da sustentabilidade André explica que Espiritismo e Ecologia  estão muito juntos já que “estaremos preocupados não apenas com os filhos e netos, estaremos preocupados com nós mesmos, quando nos afirmamos como recarnacionistas. Quer dizer: a lei do retorno, que o budismo também preconiza, estabelece uma ética que não é só para com o outro é também  um legado que você deixa para os outros, para você.
Provocado sobre o que acha dos cultos de fé cega, alienada e os perigos que isso representa ele foi, como  sempre, muito civilizado: “O mundo, ele é desigual em vários aspectos. Inclusive nas crenças. Questões de fé é de cada um. Quem se identifica com um discurso mais radical, com dogmas rígidos, código moral secreto, quem se identifica, que seja feliz assim. Cada um escolhe o seu caminho, ninguém é obrigado. Você busca o que você tem afinidade. E finalizou sublimando, valorizando “ a sinergia entre budismo, judaísmo e diferentes religiões cristãs. Eu, espiritismo, nessa família cristã, na busca  de um mundo melhor e mais justo. De um mundo sustentável”      
”VEJA O PING PONG – NA INTEGRA
O JORNALISTA E PROFESSOR ANDRÈ TRIGUEIRO FALA, NA BAHIA, SOBRE MIDIA, MEIO AMBIENTE, RELIGIAO, POLITICA, CIENCIA, CONFERENCIA DE NAGOYA E COP XVI, EM ENTREVISTA EXCLUSIVA A JORNALISTA E  ATIVISTA SOCIOAMBIENTAL  LILIANA PEIXINHO
A gente precisa ter coragem e compromisso em denunciar, em mostrar o que realmente está sendo feito e o que se diz que esta sendo feito”.
Liliana Peixinho - A gente acompanha o seu trabalho, como professor, escritor, jornalista, que dirige programas importantes em universidades, rádios, TVs, a exemplo do Cidade e Soluções, na Globo News, e observamos seu envolvimento, competência e compromisso com a grande pauta Sustentabilidade. E essa referencia, como pessoa, profissional, nos inspira, nos encoraja e nos mostra desafios e dificuldades para nossos estudos para um jornalismo ambiental, cientifico, ético, informativo, educativo. Nesse contexto, observamos algumas preocupações entre a Academia e o campo, com relação, por exemplo, ao papel da Ciência.  Nesse contexto, como você vê o papel da Ciência na aproximação verdadeira do Homem com o Meio Ambiente, de corpo, espírito e cérebro, antenada com necessidades humanas que não façam da vida um sacrifício, uma carga pesada, mas um prazer?
André Trigueiro – Olha, eu não sei, propriamente se a Ciência poderia ser enquadrada, num nincho monolítico, assim. Você tem diferentes áreas de pesquisa, umas mais sensíveis à causa que você esta levantando, de humanizar as Ciências, a Ciência pra que e pra quem, e por que?. E uma Ciência uma pouco mais pragmática, que as vezes, por via não lineares, ajuda a gente, ou a humanidade, a prestar mais  atenção no valor do meio ambiente, da natureza. Vamos dar o exemplo da recente Conferencia de Nagoya, em que pela primeira vez, se apresentou um estudo valorando os serviços ambientais. Por exemplo: quem fez esse estudo estava interessado em que? Em sensibilizar empresários para que corroborarem em favor de um tratado internacional em que se realizasse um movimento em favor da retirada sustentável dos recursos, respeitando a capacidade de suporte dos ecossistemas. Eu vi muita gente, muitos ambientalistas dizendo: mas é possível contabilizar, em valores monetários, quanto vale uma floresta, quanto vale os oceanos, os manguezais, coisa esquisita, economicista ao extremo. Sim, mas é uma contribuição importante para quem está absolutamente desconectado dessa realidade sensorial com o meio ambiente. Esse lado não mercantilista do uso dos recursos naturais comece a se dar conta de que há um limite, há um risco de colapso, sabendo usar não vai faltar, e que precisa sim estimar valores, e que seja por esta porta, por essa via, para que se tenha uma outra atitude em relação a natureza. Então, é preciso que cada um, com suas ferramentas metodológicas, com sua visão de mundo, possa contribuir para um novo modelo de desenvolvimento, que é o que interessa.
L.P -  E, nessa contribuição, como você observa o papel do jornalista, nas seus mais diversos campos de atuação, na transversalizacão sobre a visão  de mundo, para o resgate de valores humanos, espírito solidário, mudança de comportamento com relação ao consumo para um planeta mais cidadão? A academia, por exemplo, discute a necessidade ou não, de editorias especificas sobre Meio Ambiente, Ciência, defendendo a transversalidade da informação em todas as editorias, seja em política, economia, esporte, cultura, onde o compromisso com a informação de qualidade possa agregar valores para uma concepção de mundo integrado, solidário, responsável. Então como você observa o compromisso do jornalismo com esse processo? Resgate de valores , de olhar o outro, de se espiritualize para ter a grandeza que o ser humano precisa ter para dizer que vive?
A.T – Eu entendo jornalismo como duas frentes de trabalho que não se excluem, pelo contrário, são complementares: denunciar o que está errado, sinalizar os rumos, as saídas, as alternativas, opções inteligentes em favor da vida. Então a gente nunca vai perder essa perspectiva de denunciar o que é irregular, como malversação de recursos públicos, desrespeito às leis, a presença de criminosos fortemente armados em comunidades de baixa renda, como é a realidade que estamos vivendo, hoje, no Rio. Esse tipo de denúncia faz parte da nossa agenda. Estaremos sempre abrindo caminho para dizer o que não funciona. E, um outro segmento, outra preocupação, que é sinalizar como perspectiva. Eu concordo com a tese de que a gente não precisa de uma editoria de Meio Ambiente. Eu não sou jornalista ambiental, isso me coloca num gueto que não me sinto confortável. A COP XVI, no México, em Cancun, por exemplo, é pauta de que editoria? De Internacional, Economia, Meio Ambiente, Política, ou de todas? De todas!. Então, é um processo. Estamos hoje melhor do que já estivemos, em todos  os aspectos: espaço ocupado na mídia, qualidade das pessoas que estão fazendo uso da palavra e da escrita para expressar o que é a noticia. E estaremos, no futuro, se Deus quiser, melhor do que  estamos hoje. Mas capacitados para falar desses assuntos com a sua devida ordem de grandeza.
LP – O tema, sustentabilidade teve uma abrangência, uma visibilidade muito grande, nos últimos anos, digamos, 10 anos, talvez. Mas, o  termo sustentável ficou muito banalizado e assim, o discurso hoje é algo como: “não adianta eu separar o meu lixo em casa porque lá na porta a prefeitura não faz isso. É perda de tempo”. A imprensa, a sociedade,  banalizou tanto, escandalizou tanto os problemas, de forma catastrófica, que é como se o povo estivesse anestesiado. Então, como é que a gente pode contribuir, como jornalistas, educadores, cidadãos, formadores de opinião, para termos uma visão de mundo com olhar integrado? Como podemos, digamos, não desbanalizar o termo sustentável, mas dar a ele a forca que ele precisa ter para se entender que não é o planeta  que está se acabando, é a vida de cada um que precisa ser preservada. E de imediato?

“Não é correto, do ponto de vista da informação com credibilidade, usar o termo sustentável como adjetivo de tantos empreendimentos imobiliários, bancos, postos de gasolina, supermercados, companhias petrolíferas ou de mineração, dizendo que é sustentável. É, é uma ova. E ai a gente está aqui para dizer porque não é. E esse debate é muito rico e fecundo”.
AT – Bom, em primeiro lugar, sensacionalismo não combina com jornalismo ético, e de credibilidade. Aonde há sensacionalismo há perda de credibilidade. Você atende a outros interesses que não o da informação correta. Agora, por vezes, a gente precisa ser alarmista. Eu não vejo uma conotação pejorativa no senso de urgência que algumas notícias precisam sinalizar em relação a inevitável mudança em favor da vida. Então, precisamos, por vezes, dar o alerta. A gente precisa deixar claro que não é possível mais nos acostumarmos ou introjetarmos na nossa cultura certos hábitos, comportamentos, ou padrões de consumo, que são potencialmente danosos a vida. Qual é a palavra chave para isso? É calibragem. E como se faz a calibragem num texto jornalístico, do que você precisa alertar sem desmobilizar as pessoas? Isso não é fácil explicar, é um trabalho do mestre cuca. A comida tem que ter aspectos nutricionais importantes, mas tem que ter sabor. Tem que equilibrar elementos. E isso não é fácil responder, não é fácil dizer como. Mas, eu estou aqui expressando uma vivencia . É um norte magnético para o meu trabalho. A outra questão: eu adoro a palavra sustentabilidade e acho que a gente tem o direito, tal qual se dá com o desenvolvimento sustentável, que não é um conceito fechado, de nos patrulharmos mutuamente para ver como se dá o emprego desses termos ou expressões no dia a dia zelando pelo seu sentido mais puro. Quer dizer, não é correto, do ponto de vista da informação com credibilidade, usar o termo sustentável como adjetivo de tantos empreendimentos imobiliários, bancos, postos de gasolina, supermercados, companhias petrolíferas ou de mineração, dizendo que é sustentável. É, é uma ova. E ai a gente está aqui para dizer porque não é. E esse debate é muito rico e fecundo. Eu usei a palavra pureza, mas não sou propriamente um purista. Mas eu acho que é gostoso viver numa sociedade onde a imprensa é livre, o MP atuante, onde se tem as organizações não governamentais, a Academia, empresas, Igrejas, governo, todo mundo dando pitaco sobre o que é sustentabilidade. E, dessa discussão, se me parece, a gente avança, a gente avança debatendo e reportando. Porque que o outro diz que o projeto dele é sustentável, talvez não seja e isso e bom, é saudável. Eu gosto disto. Acho bom.
Importante incomodar esse poder dominante. Estamos falando de uma classe política e de uma classe econômica que complementam  ou consensuam que não há propriamente algo a ser mudado no que esta ai.”

LP – A comunicação, de forma geral, e a publicidade, em particular, parece ter absorvido, com muita competência, o discurso da sustentabilidade, mais em prol do que podemos chamar de Marketing Verde Vazio. E você falou, há um tempo ai atrás, no Observatório da Imprensa, que “a gente precisa ter coragem e compromisso em denunciar, em mostrar o que realmente está sendo feito e o que se diz que esta sendo feito”. Nos temos muitos embates no curso de Jornalismo Cientifico da Facom- UFBA, coordenado pela jornalista, professora Simone Bortoliero, onde ela convida diversos colegas jornalistas de todo o Brasil para vir a Bahia socializar informações conosco e onde estamos sempre a nos questionar como podemos integrar a Comunicação, principalmente, a publicidade, num discurso que seja harmonioso, por que a mesma competencia que a publicidade teve para incorporar um discurso de marketing verde vazio , mas convincente, sedutor com o consumidor, o jornalismo, nos parece,  não está tendo, para que possa ser um canal realmente educativo, informativo e que faça o pulo da mudança do comportamento, principalmente com relação ao consumo, que nos parece ser o grande desafio para a construção de um novo paradigma de mudança do modelo de consumo predatório como o americano e onde a China vem ai com tudo, nesse incentivo ao supérfluo, e onde temos um governo cuja política de Lula costuma medir/ressaltar o poder aquisitivo do brasileiro baseado em consumo de carros em detrimento ao incentivo/apoio ao transporte de massa, por exemplo. Enfim, a preocupação é: qual o modelo que estamos a desenhar, perseguir, que a gente precisa. para o futuro ?   
AT -  Esse modelo não existe. E o grande desafio é esse. A gente está tendo que trocar o pneu da bicicleta com a bicicleta andando. A gente não tem esse modelo, estamos descobrindo, fazendo. O que e que a gente sabe? : os valores prevalentes da sociedade de consumo não são sustentáveis. O que e que a gente também sabe? Não é possível uma operação desmonte, que substitua o que esta ai. Você falou da relação Estados-China, por exemplo, não é por decreto, não se faz isso de um dia para outro dizendo assim: agora vamos acabar com a sociedade de consumo, vamos acabar com a banalização na compra de supérfluos e vamos ter aqui valores altruístas, humanitários, coletivos, socioambientais. Não é assim. Importante incomodar esse poder dominante. Estamos falando de uma classe política e de uma classe econômica que complementam ou consensuam que não há propriamente algo a ser mudado no que esta ai. Então, nesse momento é uma luta que se resolve em fases. Nesse momento importa convencer o maior número de pessoas, físicas ou jurídicas, que estamos num caminho que  remete ao ecocity. E isso não é pouca coisa. E, a  medida que avançamos nessa direção,  vamos nos capacitando a descobrir, se não é isso o que será? Se não é para termos uma sociedade ancorada no consumismo é para termos uma sociedade  ancorada em que valores? E que desenho de engrenagem econômica, que gere emprego e renda?. Como é que a gente faz isso? E antes da gente dizer como é que faz isso precisamos explicar, com a devida clareza, que o que está acontecendo agora não é conveniente. São etapas que vão se sucedendo. A gente tem que fazer as perguntas certas. A academia hoje não esta preparando economistas para o século XXI. É preciso pensar nisso. São exceções a regra como Eduardo Giannetti da Fonseca, Jose Eloy da Veiga, Sergio Besseman, são alguns nomes de pessoas que estão contra a maré. Então tem um tempo ai de decantação para a gente começar, antes de querer pronto um desenho de civilização baseado em outros princípios, a gente tem que queimar a mufa para ter a clareza do diagnóstico e dizer: isso não nos convém.
LP- Os 20 milhões de votos de Marina, com os Núcleos Vivos internos que foram pouco identificados pela mídia foi um alento à alimentação desse processo que você se refere? E, a presença feminina de Dilma Rousseff pode ter um peso no cominho político de mudanças com relação ao trato ambiental?
AT- O Leonardo Boff acha que sim. Mas eu não faço disso, propriamente, uma questão de gênero. Eu acho que você pode ser um homem muito sensível, com uma visão feminina prevalente de mundo e de valores e de atitudes e você pode ter uma mulher legítima representante da sociedade patriarcal. Mas, enfim, Leonardo sabe mais do que eu, portanto  quero confiar no que ele acredita. Nesse momento eu torço para que o governo dela seja um sucesso e que ela, como mulher, realmente, não por ser mulher apenas, mas que ela, também, sendo mulher, abriria mais espaço para uma outra forma de gestão.
“ Você pode colocar o nome da Marina Silva no dicionário da história política do Brasil como alguém que nas eleições presidenciais de 2010, na sua primeira candidatura à presidência, surpreendeu as instituições, surpreendeu o próprio eleitorado.”
Os 20 milhões de votos da Marina precisam ser contados, ao meu ver, da seguinte maneira: quem está fechado com a Marina por ser Marina ou por identificar-se com o pensamento de Marina, é metade disso, são os 10 milhões de votos que  parte da campanha colaram na candidatura do PV. Os outros 10 milhões, que vieram na reta final, eu já não tenho a segurança de afirmar que vieram por esse motivo. Eu acho que houve uma combinação de fatores do tipo: desilusão com os candidatos oficiais; campanha fratricida, um jogando denúncia na cara do outro, no colo do outro, e isso frustrou um contingente importante de eleitores. Além dos boatos de que eles não tinham, propriamente, respeito a certos princípios religiosos. Mas,  é um alento . E, respondendo objetivamente sua pergunta ela é um fenômeno.Você pode colocar o nome da Marina Silva no dicionário da história política do Brasil como alguém que nas eleições presidenciais de 2010, na sua primeira candidatura à presidência, surpreendeu as instituições, surpreendeu o próprio eleitorado. O fato dela ter ganhado em algumas importantes capitais e ter tido expressiva votação no Rio de Janeiro, por exemplo.
LP- Você acha que a proposta de Marina, de um jeito novo de fazer política, voto consciente, transversalizar a pauta ambiental e até defender o transpartidarismo, teve algum alcance, foi projetado na sociedade?
AT –A Marina foi o novo. E o novo em que sentido? No sentido dela estar muito bem embasada, muito bem acompanhada. Foi a única candidata das quatro candidaturas mais experientes, a apresentar um programa de governo detalhado e consistente. Portanto, o que ela estava falando estava lastreado em compromisso por escrito. Algo que os dois candidatos não fizeram. E um discurso muito sedutor. Eu entendo que nós temos no Brasil a necessidade  de se ver balizar um novo modelo de desenvolvimento. E um pais com a nossa configuração tem toda capacidade de construir, que seja realmente colocando a sustentabilidade como o eixo motivacional. Não é um adereço, não é uma variável digamos um tanto distante do desenvolvimentismo, mas é  tão importante quanto produzir riqueza, tão importante quanto gerar emprego e renda, é  que essas políticas públicas não onerem o passivo ambiental do Brasil, pense um Brasil futuro numa escala de 50  a 100 anos quando a gente fala de matriz energética; que pense em Educação, olhando nas grades curriculares, ementas de cursos tradicionais a possibilidade de inserir não uma disciplina eletiva, durante um semestre, mas como na Engenharia, no Jornalismo, na Economia, na Odontologia, na Agronomia, como é que se inclui a variável Sustentabilidade. Esse é um discurso que está condenado a crescer. Então, a semeadura foi boa. E que não seja do gueto do PV. Eu torço para que nas próximas eleições nem o PV e nem a Marina sejam os únicos porta-vozes desse discurso.
LP – Por isso que eu te perguntei sobre os Núcleos Vivos da campanha, como o MMS, Movimento Marina Silva e pessoas que não gostam de partidos, ONGs e movimentos ambientalistas, como o AMA- Amigos do Meio Ambiente que foi até SP buscar subsídios para ampliar a campanha, na Bahia, no Nordeste. André tem muita gente esperando a sua palestra e não queremos atrapalhar. Queria fazer uma última pergunta, sobre o que creio pouca gente conhece, sobre sua pessoa, sobre o tema de sua palestra, “Espiritismo e Ecologia”.
AT -   Essa  última pergunta, é pra me derrubar!! ( risos..)
LP. Não, é que temos curiosidade de saber como é isso, porque você me parece,  você não é um jornalista que fala sem coração e alma, com certeza!!

“ Se eu bem entendo o significado do discurso religioso é de nos religarmos a uma força superior, todas as religiões tentam nos transformar em pessoas melhores e promovem à vida, na sua plenitude. Uma religião que não seja sustentável é um paradoxo”

AT-  Olha, todas as religiões, todas as tradições espirituais para se afirmarem como tal precisam ser sustentáveis, Porque, se eu bem entendo o significado do discurso religioso é de nos religarmos a uma força superior, todas as religiões tentam nos transformar em pessoas melhores e promovem à vida, na sua plenitude. Uma religião que não seja sustentável é um paradoxo terrível. Espiritismo é uma filosofia espiritualista que  tem aspectos religiosos e trás nas suas informações básicas, isso é interessante porque é uma doutrina que tem 150 anos e ela realmente é muito moderna em assertivas que remetem a um mundo mais solidário e no uso dos recursos naturais, separa o que é necessário do que é supérfluo e com uma consideração importante no que é reencarnação. Nós somos recarnacionistas, portanto, para cá regressaremos se tivermos a compatibilidade com a vida, com esse planeta, que está em transformação, devera ter. Portanto, nós estaremos preocupados não apenas com os filhos e netos, estaremos preocupados com nós mesmos, quando nos afirmamos como recarnacionistas. Quer dizer: a lei do retorno, que o budismo também preconiza, estabelece uma ética que não é só para com o outro   também é para um legado que você deixa para os outros, para você.
LP – Para concluir. Como é que se pratica isso sem entrar na questão de fé cega, no fanatismo, porque isso é um problema não e?
AT- O espiritismo, bem compreendido, é a fé raciocinada. Eu não estou aqui.
LP- Desculpa, mas eu não falo só com relação ao espiritismo, mas com relação a espiritualidade, de forma geral, de introduzir essa coisa sublime de pensar no outro sem cair no que nós observamos hoje, no Brasil e no mundo, na fé cega, alienada, no culto até, por vezes, violento, com registros na própria imprensa.
AT-  Hummm, bem, questões de fé é de cada um. Quem se identifica com um discurso mais radical, com dogmas rígidos, código moral secreto, quem se identifica, que seja feliz assim. Cada um escolhe o seu caminho, ninguém é obrigado. Você busca o que você tem afinidade. O mundo, ele é desigual em vários aspectos. Inclusive nas crenças. Eu não vou falar mal de quem tenha outra visão de Deus, da vida ou do uso dos recursos naturais. Agora, no livro Espiritismo e Ecologia eu abro um capítulo para  falar de outras religiões. Como ela já estabelece esses links entre suas escrituras, seus pontos de fé, e o que a gente chama, hoje, modernamente de sustentabilidade, então é muito bonita essa sinergia entre budismo, judaísmo e diferentes religiões cristas. Eu, espiritismo, nessa família cristã, na busca  de um mundo melhor e mais justo. De um mundo sustentável”.