Saturday, April 21, 2012

“CADA UM PODE CONTRIBUIR PARA UM NOVO MODELO DE DESENVOLVIMENTO”, DIZ, NA BAHIA, O JORNALISTA E PROFESSOR ANDRÉ TRIGUEIRO

Texto: Liliana Peixinho
Fotos: Paula Boaventura
“A gente precisa deixar claro que não é possível mais nos acostumarmos ou introjetarmos na nossa cultura certos hábitos, comportamentos, ou padrões de consumo, que são potencialmente danosos a vida.”
Numa entrevista exclusiva, na Bahia, antes da palestra ” Espiritismo e Ecologia”, na Escola Polítécnica, em Salvador, o jornalista, escritor e professor André Trigueiro, idealizador do Programa  “Cidades e Soluções”, apresentado na Globo News e Canal Futura,  fala sobre Ciência pra que e pra quem, e por que?, critica práticas empresariais ditas sustentáveis, sem ser. Comenta a proposta de criação de um movimento em favor da retirada sustentável dos recursos, respeitando a capacidade de suporte dos ecossistemas”, defendido durante a Conferencia de Nagoya. Considera que no jornalismo, na comunicação “ é preciso que cada um, com suas ferramentas metodológicas, com sua visão de mundo, possa contribuir para um novo modelo de desenvolvimento”. Que entende jornalismo como duas frentes de trabalho que não se excluem, pelo contrário, são complementares: denunciar o que esta errado, sinalizar os rumos, as saídas, as alternativas, opções inteligentes em favor da vida.
Como pessoa e profissional antenado mostra-se otimista ao considerar que “Estamos hoje melhor do que já estivemos, em todos  os aspectos: espaço ocupado na mídia, qualidade das pessoas que estão fazendo uso da palavra e da escrita para expressar o que é a noticia. E estaremos, no futuro, se Deus quiser, melhor do que  estamos hoje. Mas capacitados para falar desses assuntos com a sua devida ordem de grandeza”.
Condenou determinadas práticas midiáticas ao dizer que “sensacionalismo não combina com jornalismo ético, e de credibilidade”. Com uma visão de mundo moderna, com práticas pessoais internalizadas, usando roupas simples, como uma bata de algodão durante palestra realizada em Salvador, a convite da Sociedade Espírita “O Semeador”, Andre mostrou todo o tempo  um semblante tranqüilo, e usou o humor crítico, irreverente e inteligente para criticar ou fazer observações sobre comportamentos de consumo (eu só uso álcool no carro, não quero nem ver o preço). Observei muito shoppings Center em Salvador. Levando o público ao delírio, arrancando muitas risadas  o recado foi sério “ Não é possível mais nos acostumarmos ou introjetarmos na nossa cultura certos hábitos, comportamentos, ou padrões de consumo, que são potencialmente danosos à vida”.
Com tapa de luva condenou o falso discurso de grandes corporações ao dizer “ Não é correto, do ponto de vista da informação com credibilidade, usar o termo sustentável como adjetivo de tantos empreendimentos imobiliários, bancos, postos de gasolina, supermercados, companhias petrolíferas ou de mineração, dizendo que é sustentável. É é uma ova. E ai a gente está aqui para dizer porque não é. E esse debate é muito rico e fecundo.
Questionado pela colega jornalista sobre  que modelo estamos a perseguir, construir. O professor Trigueiro foi taxativo “ Esse modelo não existe. E o grande desafio é esse. A gente está tendo que trocar o pneu da bicicleta com a bicicleta andando. A gente não tem esse modelo, estamos descobrindo, fazendo”.
O jornalista foi implacável ao defender o papel profissional:  “a gente precisa ter coragem e compromisso em denunciar, em mostrar o que realmente está sendo feito e o que se diz que esta sendo feito”.
E foi realista ao explicar que um novo modelo de desenvolvimento para o planeta não se faz dizendo:  “agora vamos acabar com a sociedade de consumo, vamos acabar com a banalização na compra de supérfluos e vamos ter aqui valores altruístas, humanitários, coletivos, socioambientais. Não é assim”.  Considera, nesse contexto: “Importante incomodar esse poder dominante. Estamos falando de uma classe política e de uma classe econômica que complementam ou consensuam que não há propriamente algo a ser mudado no que esta ai”.  O professor, que criou o primeiro curso de Jornalismo Ambiental na UFRJ lamentou que “A academia hoje não esta preparando economistas para o século XXI. É preciso pensar nisso. São exceções a regra como Eduardo Giannetti da Fonseca, Jose Eloy da Veiga, Sergio Besseman, são alguns nomes de pessoas que estão contra a maré”.
Sobre a presença de uma  mulher Dilma Rousseff , de uma presença feminina na presidência do Brasil,  comentou ” acho que você pode ser um homem muito sensível, com uma visão feminina prevalente de mundo e de valores e de atitudes,  e você pode ter uma mulher legítima representante da sociedade patriarcal”. E torce para que a Dilma possa ter uma nova visão de gestão para o Brasil.
Quanto aos 20 milhões de votos conquistados pela candidata  Marina André Trigueiro disse: “ Marina foi o novo. E o novo em que sentido? No sentido dela estar muito bem embasada, muito bem acompanhada. Foi a única candidata das quatro candidaturas mais experientes, a apresentar um programa de governo detalhado e consistente. Portanto, o que ela estava falando estava lastreado em compromisso por escrito. Algo que os dois candidatos não fizeram. E um discurso muito sedutor”.Com visão política avançada, independente, e desejando novas  perspectivas de avanço no discurso e práticas sustentáveis projetou desejos: “Eu torço para que nas próximas eleições nem o PV e nem a Marina sejam os únicos porta-vozes desse discurso”
Criador e apresentador do “Cidades e Soluções,” programa que ousa e tem compromisso com a Ecocity ,Andre disse que “ entendo que nós temos no Brasil a necessidade  de se ver balizar um novo modelo de desenvolvimento. E um pais com a nossa configuração tem toda capacidade de construir, que seja realmente colocando a sustentabilidade como o eixo motivacional. Não é um adereço, não é uma variável digamos um tanto distante do desenvolvimentismo, mas é  tão importante quanto produzir riqueza, tão importante quanto gerar emprego e renda, é  que essas políticas públicas não onerem o passivo ambiental do Brasil, pense um Brasil futuro numa escala de 50  a 100 anos quando a gente fala de matriz energética; que pense em Educação de forma integral”.
 
“Tão importante quanto produzir riqueza, tão importante quanto gerar emprego e renda, é  que essas políticas públicas não onerem o passivo ambiental do Brasil, pense um Brasil futuro numa escala de 50  a 100 anos”
Para entender a tranquilidade, o jeito doce e equilibrado de um jornalista que vive no mundo, cobrindo meio ambiente de forma transversalizada foi necessário saber um pouco mais da intimidade dessa pessoa. E descobrimos um lado que poucos sabem, conhecem desse jornalista ultra respeitado e com trabalho sendo referencia para outros jornalistas. O lado espiritual totalmente integrado com o seu jeito transparente de ser.  Disse ele:” se eu bem entendo o significado do discurso religioso é de nos religarmos a uma força superior. Todas as religiões tentam nos transformar em pessoas melhores e promovem à vida, na sua plenitude. Uma religião que não seja sustentável é um paradoxo terrível” Com uma visão muito avançada sobre  Espiritismo ele foi fundo na história e nos ensinou que “ é uma filosofia espiritualista que tem aspectos religiosos e trás nas suas informações básicas, e isso é interessante porque é uma doutrina que tem 150 anos, modernas assertivas que remetem a um mundo mais solidário e no uso dos recursos naturais, separa o que é necessário do que é supérfluo”

Sincronizado com o discurso da sustentabilidade André explica que Espiritismo e Ecologia  estão muito juntos já que “estaremos preocupados não apenas com os filhos e netos, estaremos preocupados com nós mesmos, quando nos afirmamos como recarnacionistas. Quer dizer: a lei do retorno, que o budismo também preconiza, estabelece uma ética que não é só para com o outro é também  um legado que você deixa para os outros, para você.
Provocado sobre o que acha dos cultos de fé cega, alienada e os perigos que isso representa ele foi, como  sempre, muito civilizado: “O mundo, ele é desigual em vários aspectos. Inclusive nas crenças. Questões de fé é de cada um. Quem se identifica com um discurso mais radical, com dogmas rígidos, código moral secreto, quem se identifica, que seja feliz assim. Cada um escolhe o seu caminho, ninguém é obrigado. Você busca o que você tem afinidade. E finalizou sublimando, valorizando “ a sinergia entre budismo, judaísmo e diferentes religiões cristãs. Eu, espiritismo, nessa família cristã, na busca  de um mundo melhor e mais justo. De um mundo sustentável”      
”VEJA O PING PONG – NA INTEGRA
O JORNALISTA E PROFESSOR ANDRÈ TRIGUEIRO FALA, NA BAHIA, SOBRE MIDIA, MEIO AMBIENTE, RELIGIAO, POLITICA, CIENCIA, CONFERENCIA DE NAGOYA E COP XVI, EM ENTREVISTA EXCLUSIVA A JORNALISTA E  ATIVISTA SOCIOAMBIENTAL  LILIANA PEIXINHO
“A gente precisa ter coragem e compromisso em denunciar, em mostrar o que realmente está sendo feito e o que se diz que esta sendo feito”.
Liliana Peixinho - A gente acompanha o seu trabalho, como professor, escritor, jornalista, que dirige programas importantes em universidades, rádios, TVs, a exemplo do Cidade e Soluções, na Globo News, e observamos seu envolvimento, competência e compromisso com a grande pauta Sustentabilidade. E essa referencia, como pessoa, profissional, nos inspira, nos encoraja e nos mostra desafios e dificuldades para nossos estudos para um jornalismo ambiental, cientifico, ético, informativo, educativo. Nesse contexto, observamos algumas preocupações entre a Academia e o campo, com relação, por exemplo, ao papel da Ciência.  Nesse contexto, como você vê o papel da Ciência na aproximação verdadeira do Homem com o Meio Ambiente, de corpo, espírito e cérebro, antenada com necessidades humanas que não façam da vida um sacrifício, uma carga pesada, mas um prazer?
André Trigueiro – Olha, eu não sei, propriamente se a Ciência poderia ser enquadrada, num nincho monolítico, assim. Você tem diferentes áreas de pesquisa, umas mais sensíveis à causa que você esta levantando, de humanizar as Ciências, a Ciência pra que e pra quem, e por que?. E uma Ciência uma pouco mais pragmática, que as vezes, por via não lineares, ajuda a gente, ou a humanidade, a prestar mais  atenção no valor do meio ambiente, da natureza. Vamos dar o exemplo da recente Conferencia de Nagoya, em que pela primeira vez, se apresentou um estudo valorando os serviços ambientais. Por exemplo: quem fez esse estudo estava interessado em que? Em sensibilizar empresários para que corroborarem em favor de um tratado internacional em que se realizasse um movimento em favor da retirada sustentável dos recursos, respeitando a capacidade de suporte dos ecossistemas. Eu vi muita gente, muitos ambientalistas dizendo: mas é possível contabilizar, em valores monetários, quanto vale uma floresta, quanto vale os oceanos, os manguezais, coisa esquisita, economicista ao extremo. Sim, mas é uma contribuição importante para quem está absolutamente desconectado dessa realidade sensorial com o meio ambiente. Esse lado não mercantilista do uso dos recursos naturais comece a se dar conta de que há um limite, há um risco de colapso, sabendo usar não vai faltar, e que precisa sim estimar valores, e que seja por esta porta, por essa via, para que se tenha uma outra atitude em relação a natureza. Então, é preciso que cada um, com suas ferramentas metodológicas, com sua visão de mundo, possa contribuir para um novo modelo de desenvolvimento, que é o que interessa.
L.P -  E, nessa contribuição, como você observa o papel do jornalista, nas seus mais diversos campos de atuação, na transversalizacão sobre a visão  de mundo, para o resgate de valores humanos, espírito solidário, mudança de comportamento com relação ao consumo para um planeta mais cidadão? A academia, por exemplo, discute a necessidade ou não, de editorias especificas sobre Meio Ambiente, Ciência, defendendo a transversalidade da informação em todas as editorias, seja em política, economia, esporte, cultura, onde o compromisso com a informação de qualidade possa agregar valores para uma concepção de mundo integrado, solidário, responsável. Então como você observa o compromisso do jornalismo com esse processo? Resgate de valores , de olhar o outro, de se espiritualize para ter a grandeza que o ser humano precisa ter para dizer que vive?
A.T – Eu entendo jornalismo como duas frentes de trabalho que não se excluem, pelo contrário, são complementares: denunciar o que está errado, sinalizar os rumos, as saídas, as alternativas, opções inteligentes em favor da vida. Então a gente nunca vai perder essa perspectiva de denunciar o que é irregular, como malversação de recursos públicos, desrespeito às leis, a presença de criminosos fortemente armados em comunidades de baixa renda, como é a realidade que estamos vivendo, hoje, no Rio. Esse tipo de denúncia faz parte da nossa agenda. Estaremos sempre abrindo caminho para dizer o que não funciona. E, um outro segmento, outra preocupação, que é sinalizar como perspectiva. Eu concordo com a tese de que a gente não precisa de uma editoria de Meio Ambiente. Eu não sou jornalista ambiental, isso me coloca num gueto que não me sinto confortável. A COP XVI, no México, em Cancun, por exemplo, é pauta de que editoria? De Internacional, Economia, Meio Ambiente, Política, ou de todas? De todas!. Então, é um processo. Estamos hoje melhor do que já estivemos, em todos  os aspectos: espaço ocupado na mídia, qualidade das pessoas que estão fazendo uso da palavra e da escrita para expressar o que é a noticia. E estaremos, no futuro, se Deus quiser, melhor do que  estamos hoje. Mas capacitados para falar desses assuntos com a sua devida ordem de grandeza.
LP – O tema, sustentabilidade teve uma abrangência, uma visibilidade muito grande, nos últimos anos, digamos, 10 anos, talvez. Mas, o  termo sustentável ficou muito banalizado e assim, o discurso hoje é algo como: “não adianta eu separar o meu lixo em casa porque lá na porta a prefeitura não faz isso. É perda de tempo”. A imprensa, a sociedade,  banalizou tanto, escandalizou tanto os problemas, de forma catastrófica, que é como se o povo estivesse anestesiado. Então, como é que a gente pode contribuir, como jornalistas, educadores, cidadãos, formadores de opinião, para termos uma visão de mundo com olhar integrado? Como podemos, digamos, não desbanalizar o termo sustentável, mas dar a ele a forca que ele precisa ter para se entender que não é o planeta  que está se acabando, é a vida de cada um que precisa ser preservada. E de imediato?

“Não é correto, do ponto de vista da informação com credibilidade, usar o termo sustentável como adjetivo de tantos empreendimentos imobiliários, bancos, postos de gasolina, supermercados, companhias petrolíferas ou de mineração, dizendo que é sustentável. É, é uma ova. E ai a gente está aqui para dizer porque não é. E esse debate é muito rico e fecundo”.
AT – Bom, em primeiro lugar, sensacionalismo não combina com jornalismo ético, e de credibilidade. Aonde há sensacionalismo há perda de credibilidade. Você atende a outros interesses que não o da informação correta. Agora, por vezes, a gente precisa ser alarmista. Eu não vejo uma conotação pejorativa no senso de urgência que algumas notícias precisam sinalizar em relação a inevitável mudança em favor da vida. Então, precisamos, por vezes, dar o alerta. A gente precisa deixar claro que não é possível mais nos acostumarmos ou introjetarmos na nossa cultura certos hábitos, comportamentos, ou padrões de consumo, que são potencialmente danosos a vida. Qual é a palavra chave para isso? É calibragem. E como se faz a calibragem num texto jornalístico, do que você precisa alertar sem desmobilizar as pessoas? Isso não é fácil explicar, é um trabalho do mestre cuca. A comida tem que ter aspectos nutricionais importantes, mas tem que ter sabor. Tem que equilibrar elementos. E isso não é fácil responder, não é fácil dizer como. Mas, eu estou aqui expressando uma vivencia . É um norte magnético para o meu trabalho. A outra questão: eu adoro a palavra sustentabilidade e acho que a gente tem o direito, tal qual se dá com o desenvolvimento sustentável, que não é um conceito fechado, de nos patrulharmos mutuamente para ver como se dá o emprego desses termos ou expressões no dia a dia zelando pelo seu sentido mais puro. Quer dizer, não é correto, do ponto de vista da informação com credibilidade, usar o termo sustentável como adjetivo de tantos empreendimentos imobiliários, bancos, postos de gasolina, supermercados, companhias petrolíferas ou de mineração, dizendo que é sustentável. É, é uma ova. E ai a gente está aqui para dizer porque não é. E esse debate é muito rico e fecundo. Eu usei a palavra pureza, mas não sou propriamente um purista. Mas eu acho que é gostoso viver numa sociedade onde a imprensa é livre, o MP atuante, onde se tem as organizações não governamentais, a Academia, empresas, Igrejas, governo, todo mundo dando pitaco sobre o que é sustentabilidade. E, dessa discussão, se me parece, a gente avança, a gente avança debatendo e reportando. Porque que o outro diz que o projeto dele é sustentável, talvez não seja e isso e bom, é saudável. Eu gosto disto. Acho bom.
“Importante incomodar esse poder dominante. Estamos falando de uma classe política e de uma classe econômica que complementam  ou consensuam que não há propriamente algo a ser mudado no que esta ai.”

LP – A comunicação, de forma geral, e a publicidade, em particular, parece ter absorvido, com muita competência, o discurso da sustentabilidade, mais em prol do que podemos chamar de Marketing Verde Vazio. E você falou, há um tempo ai atrás, no Observatório da Imprensa, que “a gente precisa ter coragem e compromisso em denunciar, em mostrar o que realmente está sendo feito e o que se diz que esta sendo feito”. Nos temos muitos embates no curso de Jornalismo Cientifico da Facom- UFBA, coordenado pela jornalista, professora Simone Bortoliero, onde ela convida diversos colegas jornalistas de todo o Brasil para vir a Bahia socializar informações conosco e onde estamos sempre a nos questionar como podemos integrar a Comunicação, principalmente, a publicidade, num discurso que seja harmonioso, por que a mesma competencia que a publicidade teve para incorporar um discurso de marketing verde vazio , mas convincente, sedutor com o consumidor, o jornalismo, nos parece,  não está tendo, para que possa ser um canal realmente educativo, informativo e que faça o pulo da mudança do comportamento, principalmente com relação ao consumo, que nos parece ser o grande desafio para a construção de um novo paradigma de mudança do modelo de consumo predatório como o americano e onde a China vem ai com tudo, nesse incentivo ao supérfluo, e onde temos um governo cuja política de Lula costuma medir/ressaltar o poder aquisitivo do brasileiro baseado em consumo de carros em detrimento ao incentivo/apoio ao transporte de massa, por exemplo. Enfim, a preocupação é: qual o modelo que estamos a desenhar, perseguir, que a gente precisa. para o futuro ?   
AT -  Esse modelo não existe. E o grande desafio é esse. A gente está tendo que trocar o pneu da bicicleta com a bicicleta andando. A gente não tem esse modelo, estamos descobrindo, fazendo. O que e que a gente sabe? : os valores prevalentes da sociedade de consumo não são sustentáveis. O que e que a gente também sabe? Não é possível uma operação desmonte, que substitua o que esta ai. Você falou da relação Estados-China, por exemplo, não é por decreto, não se faz isso de um dia para outro dizendo assim: agora vamos acabar com a sociedade de consumo, vamos acabar com a banalização na compra de supérfluos e vamos ter aqui valores altruístas, humanitários, coletivos, socioambientais. Não é assim. Importante incomodar esse poder dominante. Estamos falando de uma classe política e de uma classe econômica que complementam ou consensuam que não há propriamente algo a ser mudado no que esta ai. Então, nesse momento é uma luta que se resolve em fases. Nesse momento importa convencer o maior número de pessoas, físicas ou jurídicas, que estamos num caminho que  remete ao ecocity. E isso não é pouca coisa. E, a  medida que avançamos nessa direção,  vamos nos capacitando a descobrir, se não é isso o que será? Se não é para termos uma sociedade ancorada no consumismo é para termos uma sociedade  ancorada em que valores? E que desenho de engrenagem econômica, que gere emprego e renda?. Como é que a gente faz isso? E antes da gente dizer como é que faz isso precisamos explicar, com a devida clareza, que o que está acontecendo agora não é conveniente. São etapas que vão se sucedendo. A gente tem que fazer as perguntas certas. A academia hoje não esta preparando economistas para o século XXI. É preciso pensar nisso. São exceções a regra como Eduardo Giannetti da Fonseca, Jose Eloy da Veiga, Sergio Besseman, são alguns nomes de pessoas que estão contra a maré. Então tem um tempo ai de decantação para a gente começar, antes de querer pronto um desenho de civilização baseado em outros princípios, a gente tem que queimar a mufa para ter a clareza do diagnóstico e dizer: isso não nos convém.
LP- Os 20 milhões de votos de Marina, com os Núcleos Vivos internos que foram pouco identificados pela mídia foi um alento à alimentação desse processo que você se refere? E, a presença feminina de Dilma Rousseff pode ter um peso no cominho político de mudanças com relação ao trato ambiental?
AT- O Leonardo Boff acha que sim. Mas eu não faço disso, propriamente, uma questão de gênero. Eu acho que você pode ser um homem muito sensível, com uma visão feminina prevalente de mundo e de valores e de atitudes e você pode ter uma mulher legítima representante da sociedade patriarcal. Mas, enfim, Leonardo sabe mais do que eu, portanto  quero confiar no que ele acredita. Nesse momento eu torço para que o governo dela seja um sucesso e que ela, como mulher, realmente, não por ser mulher apenas, mas que ela, também, sendo mulher, abriria mais espaço para uma outra forma de gestão.
“ Você pode colocar o nome da Marina Silva no dicionário da história política do Brasil como alguém que nas eleições presidenciais de 2010, na sua primeira candidatura à presidência, surpreendeu as instituições, surpreendeu o próprio eleitorado.”
Os 20 milhões de votos da Marina precisam ser contados, ao meu ver, da seguinte maneira: quem está fechado com a Marina por ser Marina ou por identificar-se com o pensamento de Marina, é metade disso, são os 10 milhões de votos que  parte da campanha colaram na candidatura do PV. Os outros 10 milhões, que vieram na reta final, eu já não tenho a segurança de afirmar que vieram por esse motivo. Eu acho que houve uma combinação de fatores do tipo: desilusão com os candidatos oficiais; campanha fratricida, um jogando denúncia na cara do outro, no colo do outro, e isso frustrou um contingente importante de eleitores. Além dos boatos de que eles não tinham, propriamente, respeito a certos princípios religiosos. Mas,  é um alento . E, respondendo objetivamente sua pergunta ela é um fenômeno.Você pode colocar o nome da Marina Silva no dicionário da história política do Brasil como alguém que nas eleições presidenciais de 2010, na sua primeira candidatura à presidência, surpreendeu as instituições, surpreendeu o próprio eleitorado. O fato dela ter ganhado em algumas importantes capitais e ter tido expressiva votação no Rio de Janeiro, por exemplo.
LP- Você acha que a proposta de Marina, de um jeito novo de fazer política, voto consciente, transversalizar a pauta ambiental e até defender o transpartidarismo, teve algum alcance, foi projetado na sociedade?
AT –A Marina foi o novo. E o novo em que sentido? No sentido dela estar muito bem embasada, muito bem acompanhada. Foi a única candidata das quatro candidaturas mais experientes, a apresentar um programa de governo detalhado e consistente. Portanto, o que ela estava falando estava lastreado em compromisso por escrito. Algo que os dois candidatos não fizeram. E um discurso muito sedutor. Eu entendo que nós temos no Brasil a necessidade  de se ver balizar um novo modelo de desenvolvimento. E um pais com a nossa configuração tem toda capacidade de construir, que seja realmente colocando a sustentabilidade como o eixo motivacional. Não é um adereço, não é uma variável digamos um tanto distante do desenvolvimentismo, mas é  tão importante quanto produzir riqueza, tão importante quanto gerar emprego e renda, é  que essas políticas públicas não onerem o passivo ambiental do Brasil, pense um Brasil futuro numa escala de 50  a 100 anos quando a gente fala de matriz energética; que pense em Educação, olhando nas grades curriculares, ementas de cursos tradicionais a possibilidade de inserir não uma disciplina eletiva, durante um semestre, mas como na Engenharia, no Jornalismo, na Economia, na Odontologia, na Agronomia, como é que se inclui a variável Sustentabilidade. Esse é um discurso que está condenado a crescer. Então, a semeadura foi boa. E que não seja do gueto do PV. Eu torço para que nas próximas eleições nem o PV e nem a Marina sejam os únicos porta-vozes desse discurso.
LP – Por isso que eu te perguntei sobre os Núcleos Vivos da campanha, como o MMS, Movimento Marina Silva e pessoas que não gostam de partidos, ONGs e movimentos ambientalistas, como o AMA- Amigos do Meio Ambiente que foi até SP buscar subsídios para ampliar a campanha, na Bahia, no Nordeste. André tem muita gente esperando a sua palestra e não queremos atrapalhar. Queria fazer uma última pergunta, sobre o que creio pouca gente conhece, sobre sua pessoa, sobre o tema de sua palestra, “Espiritismo e Ecologia”.
AT -   Essa  última pergunta, é pra me derrubar!! ( risos..)
LP. Não, é que temos curiosidade de saber como é isso, porque você me parece,  você não é um jornalista que fala sem coração e alma, com certeza!!

“ Se eu bem entendo o significado do discurso religioso é de nos religarmos a uma força superior, todas as religiões tentam nos transformar em pessoas melhores e promovem à vida, na sua plenitude. Uma religião que não seja sustentável é um paradoxo”

AT-  Olha, todas as religiões, todas as tradições espirituais para se afirmarem como tal precisam ser sustentáveis, Porque, se eu bem entendo o significado do discurso religioso é de nos religarmos a uma força superior, todas as religiões tentam nos transformar em pessoas melhores e promovem à vida, na sua plenitude. Uma religião que não seja sustentável é um paradoxo terrível. Espiritismo é uma filosofia espiritualista que  tem aspectos religiosos e trás nas suas informações básicas, isso é interessante porque é uma doutrina que tem 150 anos e ela realmente é muito moderna em assertivas que remetem a um mundo mais solidário e no uso dos recursos naturais, separa o que é necessário do que é supérfluo e com uma consideração importante no que é reencarnação. Nós somos recarnacionistas, portanto, para cá regressaremos se tivermos a compatibilidade com a vida, com esse planeta, que está em transformação, devera ter. Portanto, nós estaremos preocupados não apenas com os filhos e netos, estaremos preocupados com nós mesmos, quando nos afirmamos como recarnacionistas. Quer dizer: a lei do retorno, que o budismo também preconiza, estabelece uma ética que não é só para com o outro   também é para um legado que você deixa para os outros, para você.
LP – Para concluir. Como é que se pratica isso sem entrar na questão de fé cega, no fanatismo, porque isso é um problema não e?
AT- O espiritismo, bem compreendido, é a fé raciocinada. Eu não estou aqui.
LP- Desculpa, mas eu não falo só com relação ao espiritismo, mas com relação a espiritualidade, de forma geral, de introduzir essa coisa sublime de pensar no outro sem cair no que nós observamos hoje, no Brasil e no mundo, na fé cega, alienada, no culto até, por vezes, violento, com registros na própria imprensa.
AT-  Hummm, bem, questões de fé é de cada um. Quem se identifica com um discurso mais radical, com dogmas rígidos, código moral secreto, quem se identifica, que seja feliz assim. Cada um escolhe o seu caminho, ninguém é obrigado. Você busca o que você tem afinidade. O mundo, ele é desigual em vários aspectos. Inclusive nas crenças. Eu não vou falar mal de quem tenha outra visão de Deus, da vida ou do uso dos recursos naturais. Agora, no livro Espiritismo e Ecologia eu abro um capítulo para  falar de outras religiões. Como ela já estabelece esses links entre suas escrituras, seus pontos de fé, e o que a gente chama, hoje, modernamente de sustentabilidade, então é muito bonita essa sinergia entre budismo, judaísmo e diferentes religiões cristas. Eu, espiritismo, nessa família cristã, na busca  de um mundo melhor e mais justo. De um mundo sustentável”.      
   

Monday, May 23, 2011

Venha reinventar o mundo na Rio +20!

Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental

Venha reinventar o mundo na Rio +20!


O Movimento AMA/RAMA integrante da rede REBEA, articulador do Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20, vem a público socializar informações postadas na REBEA, manifestar seu interesse em atuar, apoiar, participar, fortalecer e apresentar propostas para as ações junto as organizações da sociedade civil e movimentos sociais e populares de todo o Brasil e do mundo, para participar do processo que
ulminará na realização, em junho de 2012, do evento autônomo e plural, provisoriamente denominado Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD). Entre as propostas estão as campanhas PACTO DAS DONAS DE CASA, EMPRESAS E INSTITUIÇÓES PARA COLETA SELETIVA EM APOIO AO CATADOR , como ação proativa para o CONSUMO CONSCIENTE, ADOÇÃO DA CULTURA DOS 7Rs - Racionalizar, Reduzir, Repensar, Recriar, Reaproveitar, Repartir, Revolucionar e DESPERDICIO ZERO = LIXO ZERO = SANEAMENTO DEZ = SAUDE MIL . Todas com agregação em aproveitamento integral do alimentos/segurança alimentar, cultura de prevenção e construção de cadeias produtivas sustentáveis de ponta a ponta, para o comércio justo, inclusão social e bem viver em harmonia com a matriz mãe: Natureza.

Histórico socioambiental mundial

Resgate feito pela REBEA lembra que há vinte anos, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio 92) e o ciclo social de conferências das Nações Unidas que a ela se seguiu, discutiram os problemas globais que afetam a humanidade e pactuaram uma série de propostas para enfrentá-los (as Convenções sobre Mudanças Climáticas, Biodiversidade, Desertificação, a Agenda 21, Carta da Terra, Declaração sobre Florestas, Declaração de Durban, entre outras). Mas aquilo que deveria ter sido o início da reversão das situações de miséria, injustiça social e degradação ambiental frustrou boa parte das esperanças depositadas nesse processo.

Sete bilhões de seres humanos vivem hoje as seqüelas da maior crise capitalista desde a de 1929. Vivem o aumento gigantesco da desigualdade social e da pobreza extrema, com a fome afligindo diretamente um bilhão de pessoas. Presenciam guerras e situações de violência endêmica e o crescimento do racismo e da xenofobia. O sistema de produção e consumo capitalista, representado pelas grandes corporações, mercados financeiros e os governos que asseguram a sua manutenção, produz e aprofunda o aquecimento global e as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a escassez de água potável, o aumento da desertificação dos solos e da acidificação dos mares, em suma, a mercantilização de todas as dimensões da vida.

Enquanto estamos vivenciando uma crise civilizatória inédita, governos, instituições internacionais, corporações e amplos setores das sociedades nacionais, presos ao imediato e cegos ao futuro, agarram-se a um modelo de economia, governança e valores ultrapassado e paralisante. A economia capitalista, guiada pelo mercado financeiro global, continua apoiada na busca sem limites do lucro, na superexploração do trabalho
- em especial o trabalho de mulheres e dos setores mais vulneráveis –, na queima dos combustíveis fósseis, na predação dos ecossistemas, no desenvolvimento igualado ao crescimento, na produção pela produção – baseada na descartabilidade e no desperdício e sem consideração pela qualidade da existência vivida.

Diante de tal conjuntura, o momento político propiciado pela Rio+20 constitui uma oportunidade única para “reinventar o mundo”, apontando saídas para o perigoso caminho que estamos trilhando. Mas, julgando pela ação dos atores hegemônicos do sistema internacional e pela mediocridade dos acordos internacionais negociados nos últimos anos, suas falsas soluções e a negligência de princípios já acordados na Rio92, entendemos que se não devemos deixar de buscar influenciar sua atuação, tampouco devemos ter ilusões que isso possa relançar um ciclo virtuoso de negociações e compromissos significantes para enfrentar os graves problemas com que se defronta a humanidade e a vida no planeta.

Entendemos que a agenda necessária para uma governança global democrática pressupõe um fim da condição atual de captura corporativa dos espaços multilaterais. Uma mudança somente virá da ação dos mais variados atores sociais: diferentes redes e organizações não governamentais e movimentos sociais de distintas áreas de atuação, incluindo ambientalistas, trabalhadores/as rurais e urbanos, mulheres, juventude, movimentos populares, povos originários, etnias discriminadas, empreendedores da economia solidária, etc. Necessitamos construir um novo paradigma de organização social, econômica e política que – partindo das experiências de lutas reais destes setores e da constatação de que já existem condições materiais e tecnológicas para que novas formas de produção, consumo e organização política sejam estabelecidas – potencializem sua atuação.

A Rio +20 será um importante ponto na trajetória das lutas globais por justiça social e ambiental. Ela se soma ao processo que estamos construindo desde a Rio-92 e, em especial, a partir de Seattle, FSM, Cochabamba e que inclui as lutas por justiça climática para a COP 17 e frente ao G20. Este momento contribuirá para acumularmos forças na resistência e disputa por novos paradigmas baseados na defesa da vida e dos bens comuns . Assim a REBEA no Brasil e o Movimento AMA, no Nordeste, na Bahia, se integra ao grupo e convida a todos e todas para uma primeira atividade preparatória desta Cúpula dos Povos, no dia 2 de julho de 2011, na cidade do Rio de Janeiro para – juntos e juntas – construirmos um processo que culminará em nosso encontro em junho de 2012 e se desdobrará em novas dinâmicas.


Certa de novos caminhos para a pauta de Sustentabilidade na Bahia

Sds harmoniosas
Liliana Peixinho
Movimento AMA - Amigos do Meio Ambiente, integrante da REBEA- Gestora do Comitê Facilitador da Sociedade Civil.

Thursday, April 28, 2011

Bahia aprofunda diálogo entre Ciência e divulgação científica

Por : Liliana Peixinho *



Capa do livro

Publicação aprofunda olhar sobre o papel da Ciência e sua divulgação como instrumento de democratização do saber



A Bahia lança dia 29 de abril, às 18.30 hs, no Auditório da Escola de Administração da UFBA, em Salvador, a publicação “Diálogos entre Ciência e Divulgação Científica. O livro, parceria entre os pesquisadores Simone Bortoliero, Cristiane Porto e Antonio Brotas, da Facom - Faculdade de Comunicação da UFBA, apresenta proposta de olhar a Ciência e sua divulgação através de um canal de socialização de idéias, identificação de demandas reprimidas na área, para a democratização de informações academicas, laboratoriais e de campo, aprofundando o papel social da Comunicação.

A publicação, cujo titulo completo é “Diálogos entre Ciência e Divulgação Científica: leituras contemporâneas", condensa trabalhos com pautas que vem sendo discutidas em cursos de diversas universidades como a UFBA, onde em 2010 foi iniciada a especialização em Jornalismo Cientifico e Tecnológico, na Facom- Faculdade de Comunicação, coordenado por um dos autores do livro, a professora doutora Simone Bortoliero.

Os três parceiros da obra também atuam no curso de Jornalismo Cientifico da Facom., que apresenta um quadro de professores renomados Brasil afora. Os autores reforçam, em seus artigos científicos contidos na obra, a necessidade de aprofundamento do debate sobre o papel da ciência e os caminhos e desafios para a divulgação do que está sendo produzido, pesquisado, descoberto, para ser socializado e absorvido pelo público como instrumento de poder, de transformação e de formação da cultura científica na Bahia, no pais.

Palestrante e convidados

O linguista Carlos Vogt, coordenador do Labjor -Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo - Unicamp, é convidado especial para a palestra: “ Ciência, Divulgação, Futebol e Bem-estar Cultural”. O professor Vogt foi diretor da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Alem dos autores do livro estarão presentes, também, a jornalista Graça Caldas, professora-pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da (UMESP) e atuação destacada em veículos de comunicação nacional como Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e TV Globo. Os alunos do curso da Especialização Jornalismo Científico e Tecnológico da Facom. UFBA, em sua maioria, jornalistas, estarão na platéia para o debate com os especialistas da mesa.

SERVIÇO

Lançamento livro: “Diálogos entre Ciência e Divulgação Científica: leituras contemporâneas"
Data - “Data: 29 de abril
Horário – 18.30:
Local: Auditório da Escola de Administração da UFBA- . Campus do Vale do Canela – Salvador- BA
Contatos: (71) 9984-2956 / 9984-2956 / 9984-2956 ou 31762299 / 88525301


* Liliana Peixinho – Jornalista DRT 1.430 - Aluna colaboradora da Agencia de Notícias do Curso de Jornalismo Científico e Tecnológico - Facom - UFBa
lilianapeixinho@yahoo.com.br 71 - 9938-0159

Tuesday, March 08, 2011

PROTAGONISMO FEMININO E RETROCESSOS SOCIAIS

Por : Liliana Peixinho *


A força interna da mulher canaliza energias que passam pelo cérebro, na razão do cuidado; vai para os músculos, na emergência em fazer tarefas, enfrentar desafios e persiste, insiste, diante do incansável, perene e obstinado desejo de cuidar, proteger, superar-se, a cada nosso desafio. Performances que às vezes, no drible ao tempo, deixam marcas, cicatrizes expostas, dores, sofrimento, perdas irrecuperáveis. Entre a satisfação dessas superações e a dor do não compartilhamento de tarefas amenas, como o amor e cuidado com a educação, orientação dos pais, aos filhos, no lar ou fora dele, fica a incerteza do futuro que estamos a desenhar para as novas gerações. Estamos, a cada novo dia, aumentando o percentual de mulheres que, sozinhas, são responsáveis pelo provimento das despesas da casa. No Norte e Nordeste do Brasil isso é mais agravante porque o número de filhos é maior e as oportunidades de trabalho bem menores que em outras regiões .

A luta da mulher pela conquista de espaço, reconhecimento, direitos e inserção social acompanha o próprio desenvolvimento humano. Muito se conquistou, com certeza, com sangue, suor e lágrimas. O papel multifacetado da mulher é reconhecido pela mídia, movimentos sociais, coletivos profissionais, pela própria instituição familiar que estão a destacar a luta da mulher como pessoa, ser humano, mãe, trabalhadora, tia, avó, amante, esposa, amiga, confidente, e os mais diversos e infinitos papéis que ela sempre esteve, está e estará fadada a desempenhar na construção de novas civilizações. Socializar essa discussão com ações cotidianas, focar desafios e mudanças para uma Economia circular, cidadã, sustentável é uma nova pauta na velha luta pela preservação da Vida.

Se as conquistas femininas por um lado nos enobrece, aumenta a nossa auto-estima, nos honra e nos orgulha. paradoxalmente estar a nos entristecer, fazer pensar, repensar, ponderar, porque essas conquistas deveriam nos fazer mais felizes, menos estressadas, mais harmoniosas e menos exploradas. E isso não está acontecendo proporcionalmente às nossas conquistas históricas. Ainda somos minoria no parlamento, ainda ganhamos muito menos que os homens, fazendo as mesmas funções, temos jornadas múltiplas, com acúmulo de tarefas, ainda não nos reconhecemos para nos elegermos para defender o nosso próprio protagonismo na luta por direitos. E isso é um contrasenso indignante.

É inegável o reconhecimento da participação feminina nos mais diversos ambientes de produção. A mulher se destaca como produtora do conhecimento, difusora de informações, gestora de conflitos, executora de ações verdadeiramente sustentáveis dentro das Cadeias Produtivas, de ponta a ponta, seja no lar, no trabalho, na escola, na família, na comunidade, na política, na economia. Enfim, o olhar, o fazer, o cuidado feminino, é instrumento revolucionário para a construção do novo paradigma do equilíbrio entre as necessidades de consumo e a preservação de matrizes energéticas limpas.

Guerreiras do Brasil e mundo afora que estão na luta pela conquista de novos degraus, no mais alto grau da representação política de um país, Marina, Dilma, Ana, Tereza, são oportunidades que nós, mulheres e/ou homens com sensibilidade feminina, temos agora, para reconhecermos, de fato, esse protagonismo feminino histórico. É importante nos apoderarmos de informações claras e diversas para analisarmos causas do desperdício de direitos, valores e projetos da sociedade, saber contextualizar a crise estrutural do capitalismo, desenhar e perseguir uma nova visão integrada, holístíca, multifacetada, atenta a necessidades de cumprimento de todas as etapas para a formação de cadeias produtivas alinhadas às novas mudanças de um planeta sedento de cuidados para garantirmos a Vida.

Planejamento, atitude, luta, aplicação de políticas para o desenvolvimento humano sustentável, com eqüidade, justiça social e equilíbrio ambiental, são fases importantes para qualquer ação no presente e garantia do futuro. Precisamos colocar em prática atitudes de mudança no consumo em nome da preservação da vida. Visito faculdades, empresas e instituições que têm projetos ditos “sustentáveis”, mas que não passam das idéias. O desafio é a garantia da vida com qualidade, prazer, alegria, desejo de querer fazer não porque alguém
nos manda, ordena, impõe, mas porque sabemos ser necessário, importante no papel de cada um, em casa, no trabalho, na escola, no lazer.
Oportunidades que estão diretamente linkadas com a necessidade de mudança de comportamento para uma agenda doméstica sustentável, com novas atitudes sobre Consumo Consciente, Comércio Justo, Produto Limpo, Desperdício Zero, Cultura dos RRRRRR – Repensar, Racionalizar, Reduzir, Reaproveitar, Recriar, Reinventar, Reciclar, Revolucionar, através da participação social proativa, voltada para uma Economia Circular, sem desperdícios, com aproveitamento integral, total, de tudo, com resíduos na perspectiva do zero.

Mais do que entender os efeitos negativos provocados pelo Aquecimento Global e as grandes catástrofes verificadas nos últimos anos, está faltando ao Ser Humano entender, interiorizar, absorver, no coração, alma e cérebro, que a felicidade em Ser pode estar na busca do encontro com o outro. E para caminhar nessa direção precisamos enfrentar, ainda mais, novos obstáculos, abrir mão de comportamentos egoístas, imediatistas, superficiais e meramente repetitivos, convencionais, para transgredir, subverter e quebrar regras milenares em nome da dinâmica natural das leis do Universo, com renovação, invenção, criatividade, compromisso e prazer em fazer.

Liliana Peixinho - Jornalista, ativista socioambiental. Fundadora dos Movimentos Livres AMA/ RAMA – Amigos do Meio Ambiente e Rede de Articulação e Mobilização Ambiental Pós graduada em Mídia e Meio Ambiente. www.amigodomeioambiente.com.br lilianapeixinho@gmail.com 71 – 9938--0159

Monday, November 20, 2006

Artigo - Chuvas, Desperdício e Saneamento

Liliana Peixinho *
liliana@amigodomeioambiente.com.br
lilianapeixinho@yahoo.com.br


Chuvas, desperdício e saneamento


As últimas chuvas que caíram na Bahia, inundando ruas, derrubando casas, aumentado os buracos das pistas, matando pessoas e proliferando doenças, revelam também o grau de descaso com o saneamento básico, a qualidade da água, com a Vida. Das enxurradas descem toneladas de resíduos sólidos, dos mais variados, como plásticos, papel higiênico, restos de comida, papelão, vidros, entre outros resíduos que chamam de , “lixo”, mas, que bem poderiam não estar alí, ampliando o leque de problemas à saúde e deslocamento da população; mas, em outros lugares, agregando valor à geração de renda, às campanhas contra o desperdício, ao espírito lúdico de crianças, que transforma “lixo” em arte. È muito o volume de coisas que jogamos fora, em qualquer lugar, sem nenhum critério de reutilização, racionalidade no uso, reciclagem e que, com as chuvas, acabam boiando aos nossos olhos, incrédulos.
A falta de manutenção dos esgotos, das galerias da rede subterrânea de água, associada ao desmatamento das encostas e à falta de coleta seletiva do lixo, até mesmo de unidades hospitalares, aumentam os riscos à saúde da população. Os recursos que o governo gasta com o tratamento de doenças provocadas pela falta de saneamento, pela falta de políticas ambientais preventivas, revelam uma filosofia dissonante com as necessidades atuais de preservação da vida no planeta. É inadmissível como o Governo ainda não executa ações previamente planejadas com o rigor, a urgência e a correlação entre custos e benefícios, necessários para minimizar os efeitos de fenômeno naturais e imprevisíveis como o vento e a chuva ou até alguns previsíveis, como o fogo nas florestas.
Em visita recente à Bahia a ministra do Meio Ambiente Marina Silva disse que a existência de lixões é um dos mais graves problemas ambientais do Brasil e que está trabalhando por uma política nacional de resíduos sólidos. Enquanto o projeto é idéia, o fato é que milhões de pessoas, na sua maioria crianças e idosos, estão morrendo. De acordo com artigo publicado no site Terra das Américas e distribuindo pela Agência Envolverde na REBIA- Rede Brasileira de Informação Ambiental, de autoria de Diego Cevallos “A diarréia, por falta de água segura, limpa, mata mais crianças na América Latina do que a tuberculose ou o HIV/aids, alerta a ONU. Milhões de meninos e meninas, sobretudo indígenas e afrodescendentes, estão em perigo”. E a diarréia é somente uma das doenças da extensa lista resultante da falta de qualidade na água.
Essa política não integrada, de visão estreita sobre a sustentabilidade como fator resultante de comportamentos preventivos, cuidadosos, harmoniosos, racionais, menos consumistas, está levando cientistas sociais para uma posição pessimista com relação a um futuro próximo. Se as crianças, que representam a esperança de construção desse paradigma sustentável, estão morrendo de doenças preveníveis, como diarréia e doenças respiratórias, o futuro não pode ser animador. “Para as crianças que não têm água limpa e saneamento, o futuro é de morte, pobreza e doenças, e isso provavelmente os seguirá pelo resto de suas vidas”, disse ao site Terramérica Liliana Carvajal, uma das redatoras do Informe sobre Desenvolvimento Humano 2006, apresentado, no dia 9 de novembro, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
O documento diz que “a água limpa e o saneamento estão entre as medidas preventivas mais poderosas para reduzir a mortalidade infantil. Representam para a diarréia o mesmo que a imunização representa para as doenças mortais”. O Brasil, a Bahia têm grande potencial de água sem a devida contrapartida de preservação dos seus mananciais. A AMA –Amigos do Meio Ambiente, movimento que luta em favor da preservação da vida, mostra, em sua exposição permanente e itinerante “O Homem e o Meio Ambiente”, que a água e as diversas formas de seu uso, cuidado, captação, estocagem, distribuição, parece ainda não representar grandes riscos para a preservação da vida.
O Informe Sobre Desenvolvimento Humano, que o Pnud divulga anualmente desde 1990, enfatiza que investir em água e saneamento salvaria milhões de vidas, com agregação de valor econômico. O acesso universal a serviços de água e saneamento reduziria a carga financeira dos sistemas de saúde nos países em desenvolvimento em cerca de US$ 1,6 bilhão ao ano. Em países como a Noruega, a água limpa reduziria em mais de 20% os casos de diarréia; no Peru 15% e na Guatemala cerca de 40%, segundo o Pnud.
No Brasil o déficit de saneamento representa mais de 40 bilhões de reais. E o que se gasta para socorrer, fazer de conta que resolve, não só tem matado como alimentado o vício de políticos compradores de votos de pessoas que são levadas a trocar o seu direito de escolher pelo “dever” de pagar caro por um pote de água de qualidade duvidosa.

Liliana Peixinho * - Jornalista, Correspondente na Bahia do Jornal Folha do Meio Ambiente, Moderadora da REBIA – Nordeste Rede Brasileira de Informação Ambiental, Coordenadora da AMA – Amigos do Meio Ambiente.