Tuesday, March 24, 2015

O CUIDADO DE CADA UM


AMA cria CICLO LIXO ZERO
Liliana Peixinho - Jornalista Ativista
O Movimento AMA - Amigos do Meio Ambiente, criado em 1999, está a realizar ações em condomínios para o DESPERDICIO ZERO = LIXO ZERO = AMBIENTE 10
O bloco 37, bairro Saboeiro, Salvador- Bahia, apresenta resultados que começam a brotar bons frutos, em cadeia de uso e descartes limpos de ponta a ponta. A sensibilização é focada em Cultura dos 7 Rs : Racionalizar, Reduzir, Repartir, Reutilizar, Reinventar, Reutilizar, para Revolucionar comportamentos. A proposta é mudar hábitos sujos, em limpos.
Identificamos, apoiamos e incluímos catadores, artesãos, artistas, educadores ambientais, donas de casas proativas, como Agentes Transformadores.
A coleta que o AMA faz, porta a porta, gera saneamento, renda, inclusão comunitária, cidadania e alegria, a quem recebe e transforma.
Nosso sonho, desde1999, é " LIXO ZERO". Achavam loucura! E o mundo mostra que é possível, e necessário. Basta querer e fazer.
Se tudo for separado para descartar, em cuidado, até o orgânico - problema seríssimo em falta de saneamento - vai adubar os "QUINTAIS VERDES"
Nossa meta é educar sensibiizar, na ação do fazer, para subverter o conceito "lixo": algo sujo, misturado, foco de doenças - em civilidade, saúde, onde MENOS consumo, será sempre, MAIS: vida, harmonia, felicidade de verdade!
Entenda o CICLO DESPERDICIO ZERO = LIXO ZERO = AMBIENTE 10
Veja fotos da sequência do ciclo
1 - Com a síndica Vécia Acely, do bloco 37, Saboeiro, Salvador, Bahia. As Caixas Coletaras AMA pegam carona em carro amigo, como o de Nanci Belas para a trilha de exemplo multiplicador. até artesãos e agentes transformadores do bem.
2 - A artista da Galeria de Artes Zel Torres, recebe o material coletado pelo Movimento AMA - Amigos do Meio Ambiente, que, em ação agregadora, do OUTRO NO EU, expõe trabalhos, feitos com arte e compromisso pelo casal Ivan e Diva, da Mosaicos Reciclados, onde turistas e visitantes compram, usam, e decoram ambientes, de forma harmoniosa, sustentável, de fato, ao ajudar, incluir, valorizar a produção da comunidade local.
3 - Sabe aquelas Caixinhas de leite, sucos... embalagens de material de limpeza, caixas de papelão de produtos diversos" Então, cada morador separa os seus resíduos, de forma limpa e educada, e ao sair para a rua, dá uma paradinha na porta do 201 e deixa a Caixa AMA Coleta ou a Sacola AMA, no trinco e o que seria: "lixo", se transforma em "arte", renda, inclusão, saneamento, civilidade, vitrine para o mundo. Um exemplo é a Galeria de Artes Zel Torres, na Comunidade de Arembepe, Litoral Norte da Bahia.
4 - E aqueles vasos de produtos de limpeza?. Como danificam os rios, mares e florestas, Brasil afora. Mas, cortados em pequeninos pedaços e montados em mosaicos, viram quadros lindos, com resgate de culturas tradicionais: Quilombolas, pescadores, marisqueiras, muito presentes na Bahia. Povos que na zona rural, recebem do AMA vasilhames de coleta de óleo de cozinha, que não foi ralo abaixo poluir a água tratada e vira sabão, em mãos cuidadosas como as da família de Seu Arnou, lá na comunidade de Umburana, Bahia Sertão Adentro.
5- E aquela madeiras de demolição? É totalmente reaproveitada em arte útil e decorativa, colorindo e alegrando a casa, o trabalho, a escola.
6 - E como o Brasil consume muito cerveja, refrigerante, sucos e tais o que fazer com tanta ( aff) latinhas?. O Luiz Cerqueira mostra o que ele faz. Usa como base de parede para Moradia Sustentável na Comunidade Alternativa Aldeia de Arembepe., Litoral Norte da Bahia.
" Uso 10% de cimento e o restante, de areia, Liliana, " diz o artista plástico Luis Cerqueira, do Studio 44. Luis também usa material que o mar rejeita nas areias das praias. Todas as manhãs, depois de sua corrida na Praia de Arembepe e do seu banho de mar, Lula volta ao Studio 44, cheio de resíduos, rejeitados pelas águas de mares até distantes da Bahia, do Brasil E ele Reutiliza tudo, em "Arte Protesto".
7 - Olha ai Banheiro Sustentável, ao ar livre, no Studio 44- do Artista Luis Cerqueira. Fica no Paraíso Ecológico Aldeia de Arembepe -Litoral Norte da Bahia.
8 - E como cimentar todo o quintal é bizarro, criminoso mesmo, olha o herbário do bloco 37, adubado organicamente, e com diversas plantas como: erva cidreira, capim santo, hortelâs: graúdo e miúdo, alumã, boldo, entre outras fontes de combate a problemas de saúde.
9 -Observe o cuidado de dona Maria Amélia - 84 anos, que ama plantar e colher flores, folhas e frutos - separando folhinha por folhinha, da colheita que o AMA realiza no bloco 37, e leva pra ela fazer seus chazinhos orgânicos.
10 - E para celebrar com quem leu e entendeu tudo, é hora de ferver o chá e brindar a Vida- em construção diária de ciclos limpos, saudáveis e harmoniosos - com a matriz Mãe Natureza!




http://eugestor.com/editoriais/2015/02/o-cuidado-de-cada-um/

O Cuidado de Cada Um

Por Liliana Peixinho*

Vivemos uma crise de contextos: ético, social, ambiental, político, econômico, em  traumas de vida. Água, alimentos, ar, florestas são ambientes de degradação diária, e massivamente, à nossa frente. Cenário fértil para observarmos que um pensamento simplificador e reducionista, descontextualizado do todo, não fará bem à vida. Precisamos de uma visão crítica sobre a racionalidade econômica que rege os assuntos políticos, econômicos, científicos, sociais e humanos em geral, com espaço para a prática de uma racionalidade de vida, que considere a totalidade, acate a complexidade, e acima de tudo, inclua o ambiente nos conceitos de custo e benefício.

 De que maneira nós, cada um de nós, contribuímos para a preservação ou degradação da vida?. Poderíamos nos perguntar como nossas atividades, atos, comportamentos vêm contribuindo para problemas graves, como o desperdício de alimentos, e de água. A transformação dos ambientes naturais se dá através de cada gesto, para a boa ou para a má conservação de tudo o que nos cerca: das coisas que usamos, às pessoas com quem nos relacionamos. Se cada gesto for voltado para a construção de algo bom, com certeza, teremos um resultado bom, harmonioso, em cadeia, de ponta à ponta.

A falta de ética, de respeito ao outro, de compromisso com acordos prévios, o uso de privilégios, a falta de decoro parlamentar, a corrupção, o cinismo, matam a  esperança em ver anseios, direitos, necessidades, canalizados para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos brasileiros. Os escândalos são diários e nos envergonham, em hipocrisia,  cinismo,  mentiras, artifícios diversos usados por pessoas insensíveis, sem compromisso com a construção de uma história que nos orgulhe como Nação.

Em meio a tudo isso, importante estarmos atentos ao nosso papel, como pessoa em compromisso consigo mesmo, para fazer as mudanças que interessa a cada um, como parte de um todo caótico, insustentável, sujo e feio.

A pressa consumista é cega ao detalhe, ao cuidado necessário para a preservação harmoniosa entre a vida e o  ambiente. A cultura do descartável, rápido, cômodo e substituível, é o que tem prevalecido no comportamento das pessoas. Não lhes convencem ou sensibilizam projetos e campanhas que lutam por exemplo, contra o desperdício de comida, água, papel ou energia. São detalhes que o consumo raso não se importa.

Num ambiente onde existem pessoas e empresas com visão que não agregue ação de responsabilidade social em benefício comunitário, a sustentabilidade, de qualquer ideia, fica comprometida. O bem que fazemos a uma pessoa, a um  animal, a um ambiente, seja em casa, na rua, no bairro, na cidade, se propagará como energia positiva para ambientes maiores, como o país, o planeta. O todo está ligado e não permite descuidos egoístas.

 No campo, no interior, nas pequenas cidades rurais a presença da harmonia com a natureza é sentida bem de perto. Nas folhas das árvores, na terra, no ar, no correr das águas dos rios, no canto dos pássaros, das galinhas ciscando no terreiro, no coração do povo nativo, de alma pura, atos corajosos, espírito guerreiro e mente resolvida, com a vida. Perto desse povo surge também o alívio sobre um certo sentimento de indignação, raiva da superficialidade, agonia, estresse e loucura insana de pessoas sem compromisso com a vida, digna.

A mudança de comportamento com o meio onde se vive, no dia a dia, seja em relação a uma atitude degradadora, de desperdício ou descaso com os recursos naturais é importante. A atitude de uma pessoa, ao descartar, ou não, alguma coisa, de forma correta ou incorreta, no ambiente, pode ser a grande diferença para uma revolução ambiental. Não adianta justificar a falta de ação por falta de recursos financeiros ou falta de contrapartida do poder público porque tem entidade, instituição, Ong e órgãos governamentais ou empresarias nadando em dinheiro e não sabem usar os recursos para, efetivamente, promover a vida, em cuidado.

Jogar uma saco plástico, no chão, no mar, no rio, na mata, em qualquer ambiente que “normalmente” se joga , pode parecer bobagem, mas em cadeia, tem um efeito devastador quando somados, aos bilhões. O descaso com a vida é sério e tem suas raízes, suas origens, no comportamento. Nesse contexto, precisamos rever  hábitos de vida, conceitos de conforto, estética, riqueza, miséria, saúde, doença, divulgados pela mídia.

 Temos demandas reprimidas na aplicação de tecnologias realmente sustentáveis na administração de cidades, no comércio, indústria, ciência e tecnologia, a serviço da reordenação das prioridades econômicas, sociais e políticas, no esquema produção e consumo, visando a promoção de condições de sobrevivência da espécie humana – humanidade – de todas as demais espécies que vivem neste planeta. É  preciso ampliar a visão sobre o que consideramos a natureza, de simples cenário em que o ser humano vive sua história, para parte integrante dessa história, como a mais importante, e que pode mudar  rumos à qualquer momento e em qualquer lugar. Vejamos a crise de abastecimento atual, que existe, não por falta de água, que agora inunda municípios, São Paulo e Brasil afora; mas, como conseqüência do nosso comportamento com a fonte da vida.

 A transformação dos ambientes naturais se dá através de cada gesto, para a boa ou  má conservação de tudo o que nos cerca, das coisas que usamos, às pessoas com quem nos relacionamos. Se cada gesto for voltado para a construção de algo bom, com certeza, teremos um resultado bom, harmonioso, em cadeia, de ponta à ponta.

Importante contextualizar, nesse cenário, hábitos de vida, conceitos de conforto, estética, riqueza, miséria, saúde, doença divulgados pela mídia; e aplicar já tecnologias sustentáveis na administração de cidades, no comércio, indústria, ciência e tecnologia, a serviço da reordenação das prioridades econômicas, sociais e políticas, no esquema produção e consumo, visando a promoção de condições de sobrevivência da espécie humana – humanidade – de todas as demais espécies que vivem neste planeta; é preciso parar de considerar a natureza o simples cenário em que o ser humano vive sua história; ela é parte integrante dessa história e talvez a mais importante, podendo mudar os seus rumos a qualquer momento e em qualquer lugar é preciso buscar alternativas de trabalho e emprego pra milhões de pessoas, que não sejam poluentes, devastadoras, envenenadoras; é preciso considerar o que ainda resta como patrimônio comum da humanidade, a ser cuidado, conservado, preservado, protegido e utilizado em benefício da melhoria da qualidade de vida do conjunto dos seres humanos e das demais manifestações da vida.

Liliana Peixinho* – Jornalista, ativista, educadora comunitária. Especialista em Jornalismo Científico e Tecnológico; Mídia e Responsabilidade Social; Turismo e Hotelaria Sustentável. Fundadora da REAJA – Rede Ativista de Jornalismo Ambiental, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente; Mídia Orgânica;  RAMA- Rede de Articulação e Mobilização Ambiental e Catadora de Sonhos.

Salvador, BA, 27 de Fevereiro de 2015

Saturday, March 21, 2015

ÁGUA: FARTURA E FALTA


 DESPERDÍCIO E FALTA DE CUIDADO COM A ÀGUA, AMEAÇAM A VIDA

Por : Liliana Peixinho
        Jornalista ativista 

No dia mundial de preservação da água, as notícias não são boas. Desperdício, falta de cuidado, dificuldade no acesso, desigualdade na garantia, qualidade duvidosa, altos custos no tratamento, escolhas de investimentos em alternativas sujas, ineficientes, são alguns dos problemas históricos, principalmente em comunidades pobres, Nordeste/Sertão adentro, Brasil afora!

Veja a série especial SECA SERTÃO ADENTRO, a matéria ' HARMONIA NA ROÇA  ALTO DO CEU", publicada na Agência de Notícias Ciência e Cultura,  com exemplo de cuidado em ambiente de desafio de vida. http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/noticias/destaques/harmonia-na-casa-do-alto-do-ceu/


Eles moram no alto do Bebedouro, numa casa de varandas, onde o vento assobia forte e refresca o calor do sol quente do dia pra embalar os sonhos de noites em estrelas de janelas abertas. O terreno é fértil, a cultura é farta, a coragem e fé são de sobra e a harmonia e o amor integram a paisagem, logo na chegada, com os latidos da cadela Veluda, e a abertura da porteira por uma criança encantadora, que tudo observa e pouco fala, pra fazer muito.
Se na Terra tem um paraíso, esse lugar pode ser a casa dessa família linda que fui visitar por uns 20 minutos e tive a sorte de voltar e aceitar o convite para comer uma buchada de bode. Desculpa pouca para tanto aprendizado durante os quatro dias de espera da troca da peça do carro. Convivência das mais harmoniosas nos meus 52 anos de vida.
Todos acordam muito cedo, inclusive Dudu. Ele é dessas crianças abençoadas, nas quais a coragem chega e não sai jamais. Ele encanta, naturalmente, pelos gestos nobres e corajosos, integrados com o ritmo da natureza. Ora célere como um redemoinho, ora suave como o cair de uma folha ao chão – e redemoinhos e folhas ao chão Dudu observa sempre na roça.
ESPECIAL ÁGUA E VIDA : FARTURA E FALTA
Amor e a árvore: fonte de chuva, garantia de vida
  Rio Capivara - Arembepe - Litoral Norte - Bahia

Margem do Rio Grande, braço do Velho Chico, em Barreiras- Bahia.




Malibus - Santuário Doce - Chapada Diamantina



                                           Hábito sujo, na beira da praia - Ilha de Itaparica



                                           Poço do Ferro Doido - Morro do Chapéu - Bahia

                                         
                                     
                                       Cisterna no morro: o povo na luta da garantia da vida
                                       
                                         Cabaça d'agua: na roça, aliviando a sede



Cai um chuvinha, e vida brota, em flor



                             O tanque, com calhas em volta da casa, para aproveitar água da chuva



Nascente preservada - Território Tupinambá Serra do Padeiro - Buerarema - Sul da Bahia



                                       
Ciência e Cultura - Agência de notícias da Bahia
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atualizado em 19 de abril de 2013 ás 18:17

Harmonia na roça Alto do Céu

"Eles sabem o valor da água e se preparam para garantir a vida, em todos os seus ciclos". Essa e uma das conclusões a que chega a jornalista Liliana Peixinho sobre o povo sertanejo, em seu sexto relato de viagem.
LILIANA PEIXINHO*
lilianapeixinho@gmail.com
Eles moram no alto do Bebedouro, numa casa de varandas, onde o vento assobia forte e refresca o calor do sol quente do dia pra embalar os sonhos de noites em estrelas de janelas abertas. O terreno é fértil, a cultura é farta, a coragem e fé são de sobra e a harmonia e o amor integram a paisagem, logo na chegada, com os latidos da cadela Veluda, e a abertura da porteira por uma criança encantadora, que tudo observa e pouco fala, pra fazer muito.
Se na Terra tem um paraíso, esse lugar pode ser a casa dessa família linda que fui visitar por uns 20 minutos e tive a sorte de voltar e aceitar o convite para comer uma buchada de bode. Desculpa pouca para tanto aprendizado durante os quatro dias de espera da troca da peça do carro. Convivência das mais harmoniosas nos meus 52 anos de vida.
Todos acordam muito cedo, inclusive Dudu. Ele é dessas crianças abençoadas, nas quais a coragem chega e não sai jamais. Ele encanta, naturalmente, pelos gestos nobres e corajosos, integrados com o ritmo da natureza. Ora célere como um redemoinho, ora suave como o cair de uma folha ao chão – e redemoinhos e folhas ao chão Dudu observa sempre na roça.
Na roça Alto do Céu Dudu abre a porteira para as visitas. Foto: Liliana Peixinho
Na roça Alto do Céu Dudu abre a porteira para as visitas. Foto: Liliana Peixinho
Quando levantam da cama, a sintonia para o trabalho era imediata, de forma natural e silenciosa.  Dedé vai pra dentro da mata virgem, ainda intacta, graças a eles, levar as cabras para comer. E lá, entre uma caça de nambú e outra, Dedé se perde no tempo. Olha para o céu e vê o Sol sob a cabeça e lembra que é hora de voltar pra casa, para almoçar. Como Dedé, todas as pessoas da casa têm o mesmo ritmo com os afazeres. A mulher, Silvia, planta, rega, colhe e cozinha; a nora, Vanilda, limpa, lava, arruma e perfuma; o filho, Braz, viaja, COMPRA, vende conserta e constrói; o netinho, Dudu, faz um pouco de tudo, ao lado de cada um, semeando amor, união. Exemplo de coragem, desenha o futuro em pílulas diárias de ação do bem.
A casa é ampla, bem dividida, arejada e limpa – impecavelmente limpa. As panelas brilham, o banheiro cheira, a varanda convida para a conversa e a noite embala o sono, ao som de ventos e cores vivas de um céu iluminado por lua e estrelas que brilham em harmonia.
Tudo tem o tempo e sintonia certa na casa de Dudu. A cadela, Veluda, é tão educada que na experiência de ver e ajudar a fazer a buchada de bode ela fica ao lado das pessoas que estão tratando as carnes, quietinha, com a cabeça encostada na laje e o corpo espreguiçado, porque sabe ser longa a espera para GANHAR a sua parte das poucas sobras das carnes. O aproveitamento do bode é total, mas Veluda é amiga, corajosa, vigilante e protetora, e por isso tem o direito de comer do que comemos.
Família de Bebedouro se reune na cozinha da casa. Foto: Liliana Peixinho.
Família de Bebedouro se reúne na cozinha da casa. Foto: Liliana Peixinho.
A melancia é pequenina, comprida, mas suculenta. É tão deliciosa que dá vontade de comer até a casca, bem fininha e limpinha, sem nenhum veneno, bem diferente daquelas que estamos acostumados a COMPRAR nos SUPERMERCADOS. Os umbus sim, esses são enormes, suculentos e doces. Cresceram no ritmo do tempo, da terra, ora seca, ora molhada. Mas sempre generosa com o fruto.
Os ovos das galinhas de quintal têm gemas douradas, quase avermelhadas de tanta proteína natural. Na cozinha de Sil, o fogão fica ao lado da pia, que fica próximo a janela, onde resíduos de alimentos orgânicos como chuchu, abóbora, melancia, tomate, talos de coentro, cascas de alho e cebola são jogados pela janela e alimenta as galinhas. As cabras e porcos, de plantão, participam do mesmo ritual.
A harmonia é assim, perfeita. E nesse ritmo não existem sobras que formem lixo. Quando se resolve, como eu, fazer uma festa de aniversário, evento raro numa casa onde o orçamento tem destino certo em prioridades importantes para garantir a saúde, vá lá que se permita comprar um refrigerante para festejar e brindar a vida. Aí a embalagem já tem reuso garantido, seja para guardar água – ouro líquido do Sertão – ou mesmo para guardar grãos, como feijão. Nada se perde nessa roça. O pouco lá é muito, porque espaço para sentar, andar, correr e transitar é muito mais importante que ocupar com coisas sem valor de harmonia local.
Na roça Alto do Céu, a família de Silvia e Dudu cuidam da água. Foto: Liliana Peixinho.
Na roça Alto do Céu, a família de Silvia e Dudu cuidam da água. Foto: Liliana Peixinho.
Mesmo numa seca que dura mais de 14 meses, na roça do alto do céu, como estou chamando esse paraíso de lar, tem tudo plantado, regado duas vezes ao dia, com um regador de mão de 3 litros. Eu ajudei a molhar uma horta com melancia, maxixe, abóbora, coentro, cebolinha, alface, tomate. Claro que isso acaba morrendo, porque a chuva demora e não tem água permanente. Mas é só a chuva cair, mesmo que em pouco tempo. Mas só se for forte, como a última que caiu em novembro de 2012, por menos de 20 minutos, e provocou enchentes e levou cabeceiras de rio abaixo com dezenas de cabeça de gado.
Lá em cima, essa água da chuva ficou na roça, em muitos tanques naturais que foram construídos em sistemas de captação de chuvas pelo telhado, que vai direto pra cisterna. Eles sabem o valor da água e se preparam para garantir a vida, em todos os seus ciclos. Por isso, Sil e toda a sua família pode garantir um verde quase milagroso numa paisagem árida, ao longe, com pastagens ao fundo, aqui e acolá, ameaçando uma mata rica em ouricuri, juá, arueira, baraúna, umburana, pau de rato, umbuzeiro, calumbi, quebra-facão, incó, macambira, malva, capimacu, xique-xique, mandacaru e uma biodiversidade inteira, integrada a essa mata catingueira.
+SECA: SERTÃO ADENTRO
* Liliana Peixinho é jornalista, especialista em  Jornalismo Científico e Tecnológico, com atuação em Mídia, Meio Ambiente e Sustentabilidade. Ativista socioambiental, fundadora dos Movimentos Amigos do Meio Ambiente (AMA) e Rede de Articulação e Mobilização Ambiental (RAMA).



Sunday, March 15, 2015

CARAS CANSADAS

CARAS CANSADAS
Liliana Peixinho
Reaja - Rede de Jornalismo Ativista

Foto:  El Pais Brasil
Quem somos nós, individualmente falando, para querer ter o poder de sintetizar, como verdade social, expressões tipo: "coxinhas", "panelaço gourmet", "eleitores amarelos", entre outras tentativas de adjetivações que diminuam o simbolismo de manifestações, virtuais e reais, Brasil afora! As imagens, em tempos e ângulos reais, de início, meio e decorrer das concentrações, agigantadas do meio para o final da tarde desse domingo, 15 de Março de 2015, transversalizam, revelam N tons de dores, desejos, insatisfações, direitos negados, em demandas históricas reprimidas, agravadas, a cada novo dia, em vidas sucumbidas.
Como disse a poeta, professora e jornalista Célia Musilli: "Os súditos de Maria Antonieta não devem mais mandar a oposição comer "coxinhas", uma brincadeira assim determinou uma mudança radical na História." Não há como Ignorar, fazer de conta que não vê, ou ter a coragem cínica, servil, hipócrita, mentirosa, de tentar escamotear o real, o que nos é mostrado, aqui e ali, em pílulas virtuais, e/ou em coragem, determinação e desejo de cada cidadão, como as centenas de milhares - seriam milhões? - que hoje, dia15 de março de 2015 - lotaram ruas, praças, avenidas, estações de trens, ônibus, metrôs, barcas.... Brasil e também mundo afora. Sem crachá partidário, sem bandeira sindical, sem símbolo de agremiação estudantil, pessoas, cidadãos, sozinhos ou em grupos de amigos, vizinhos, familiares, colegas de trabalhos, se manifestaram, livremente.
Tentar diminuir a riqueza social desse dia, ai sim, poderia ser uma tentativa de golpe, contra a cidadania: multicolorida, multifacetada, indignada, desacreditada, cansada de promessas, sem retarguardas, com ou sem cara de representação de classe, partido, em ação autoral, pessoal, cidadã, irritada, explorada, enganada e faz é tempo. O Junho de 2013 não solidificou o encaminhamento de mudanças urgentes, em áreas desde a mobilidade urbana, corrupção, reforma política, eficiência de serviços ao público; passando por tudo o que é importante para garantir o que não temos, e merecemos: vida digna, a cada um, e com justa prioridade para quem, historicamente, é escravo de um sistema promotor da concentração de renda e do consumo raso, endividador, pendurado na prestação, inadimplente .
Não temos como não ficar atentos, de novo e, de novo, às respostas que precisam vir: em abertura de conversas com o governo ; em promessas que precisam ser cumpridas; em combate ao desperdício e mau uso de recursos públicos; em decisões que tem prejudicado a vida diária do brasileiro, sem quase nada, principalmente. Importante cobrar uma auto- avaliação gestora; resolver o sofrimento e dor de famílias iludidas: sem amparo básico em garantia de vida; sem emprego; sem saúde; sem escola de qualidade; sem segurança; sem comer "gourmet" ; sem panela de grife; sem contas em bancos ; sem direito, de fato, á voz, como instrumento de canalização para o bem viver. Seja rico, ou seja pobre.....
E, como a mudança em pauta não cabe selfies rasos, e passa, também pelo modelo de consumo e produção, sem confusão entre o faz de conta do crescimento á qualquer custo; e a necessidade de desenvolvimento harmonioso, inteligente, humano, civilizado, citemos Mujica:
“Quando você vai comprar algo, não paga com dinheiro, paga com o tempo de sua vida que teve que gastar para ter esse dinheiro. Todavia, se tem muito dinheiro, tem que gastar tempo em controlá-lo e [cuidar para] que não te roubem. E, ao final, és um pobre escravo que já não tem tempo para viver”.